Angola: Amontoados de lixo em Luanda “ameaçam saúde e incomodam moradores”

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Amontoados de lixo nas ruas, paragens de táxi e mercados são agora um dos principais postais de Luanda, desagradando a moradores e transeuntes que temem doenças e queixam-se da demora na recolha e mau cheiro.

Quem circula por Luanda facilmente vê os montes de lixo, no centro da cidade ou nas zonas periféricas, onde as bermas das estradas se transformaram em lixeiras, que dificultam, em muitos casos, a mobilidade de viaturas e pedestres.

Numa ronda efetuada pela capital angolana, a Lusa constatou que o lixo não é recolhido há semanas em várias zonas.

Para combater o cheiro e os vermes que ali nascem, atear fogo aos resíduos é muitas vezes a solução, apesar dos fumos causarem também problemas.

Grande parte das lixeiras a céu aberto, sobretudo nas vias principais e secundárias, não tem contentores de pequeno ou médio porte e os que ainda resistem estão a transbordar de tanto lixo.

Moradores, transeuntes, vendedoras e automobilistas lamentaram a atual situação e afirmaram recear doenças, sobretudo nesta época chuvosa, neste cenário pintado de cores tristes.

“[O lixo] é muito preocupante, sinceramente, porque é um atentado à saúde pública e neste contexto já estamos muito saturados, estamos desgastados devido ao lixo, porque não temos mecanismos de como tirar o lixo e estamos quase abandonados”, contou à Lusa um morador há quase 40 anos no bairro Campismo, no município de Cazenga.

Cândido Zongo afirmou que os moradores da zona dizem ter sido “abandonados pelas autoridades”, porque vários contactos já foram feitos no sentido de se remover o lixo, à entrada do bairro, mas a situação arrasta-se há semanas.

“O lixo está aqui já há um bom tempo, vai a caminho de duas ou três semanas, já não há locais para depositarmos e se não haver intervenção do Estado vai criar mais transtornos. É um lixo que está já a fechar as vias para circulação de pessoas e viaturas”, lamentou.

Crianças e adultos naquele bairro e noutros pontos de Luanda encontraram no lixo uma fonte de subsistência, até para conseguirem alguns brinquedos, disse uma moradora do Campismo Anacleta da Silva Bungo, que disse recear as doenças associadas à época chuvosa.

“Isso é extremamente complicado devido às doenças como a cólera e o paludismo, porque daqui saem muitos mosquitos. A lixeira aqui está já há muito tempo e também precisamos de contentores para poder depositar o lixo”, frisou.

No município do Cazenga, um dos mais populosos de Luanda, moradores recorrem às valas de drenagem para depositar o lixo por falta de contentores.

Quem circula pela estrada nacional n.º 100, conhecida como estrada direita de Cacuaco, no norte de Luanda, facilmente vislumbra, durante o percurso, os amontoados de lixo no chão, sendo também marcante a ausência de contentores.

Na vila de Cacuaco, município com o mesmo nome, a acumulação de resíduos também está a ganhar contornos preocupantes e quem ali busca o pão do dia, como Delfina Chicalanga, que vende máscaras faciais à entrada do bairro da Pedreira, narra as dificuldades para ali se manter.

“O lixo aqui está demais, os carros passam, podemos falar e [não fazem] nada, temos a pressão do lixo e dos fiscais e trabalhamos em plena corrida” disse à Lusa.

A vendedora ambulante também manifestou receios associados à insalubridade. “Daqui a pouco vão atear fogo nesse lixo e depois passamos mal com a fumaça”, sublinhou.

Já o mototaxista Orlando Leonardo queixou-se igualmente do cheiro e do amontoado de lixo na vila de Cacuaco, afirmando que a situação, que considerou “prejudicial para a sua saúde e a dos passageiros”, persiste desde o ano passado.

“Mesmo com contentores, o lixo fica sempre no chão e não é removido. É complicado, não sei o que se passa, mas o Governo tem que olhar para este lado”, exortou.

Na passada semana, a governadora de Luanda, Joana Lina, reconheceu a preocupante situação dos amontoados do lixo na capital angolana, garantindo encontrar mecanismos para rapidamente ultrapassar a situação.

Em dezembro de 2020, Joana Lina suspendeu o contrato com seis operadoras de limpeza e recolha de resíduos, por incapacidade de suportar o pagamento contratual, indexado ao dólar, em kwanzas, face à acentuada desvalorização da moeda angolana.

Algumas empresas removeram assim os contentores dos locais onde recolhiam os resíduos, que estão agora a ser depositados no chão em muitas ruas e bairros.

 

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