Angola: Banqueiros acusam José de Lima Massano de falar na “condição de político”

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Críticas do governador do BNA dirigidas à banca são desvalorizadas por banqueiros consultados pelo VALOR. Gestores do topo de alguns dos principais bancos alertam que contexto económico não permite “aventuras” no crédito e não têm dúvidas de que Massano “sabe disso”.

A temática do crédito promete continuar a não reunir consenso entre o Banco Nacional de Angola e os bancos comerciais, considerando a recente reclamação do governador José de Lima Massano e a reacção, ao VALOR, mas, em ‘off’, de alguns bancários que insistem na tese de não existir condições para a cedência de mais créditos.

“O que podemos garantir é que nós não deixámos de dar crédito por má vontade e acredito que o mesmo aconteça com os nossos colegas. O governador sabe qual é a situação actual da economia e das empresas, estão com muitas dificuldades para conseguir manter os negócios e os bancos têm de se proteger”, argumentou o CEO de um dos maiores bancos de Angola, que exigiu o anonimato, face “à sensibilidade” do tema. “A não ser que querem que surjam mais BCIs, mais BPCs e mais Caps”, acrescentou, fazendo referência ao histórico de falência destas instituições públicas como consequência do crédito malparado.

“Estão a insistir com os bancos quando sabem que, se os bancos atenderem a esta pressão, podem falir, a não ser que queiram mesmo acelerar a falência dos bancos”, defendeu, também sob anonimato, um administrador executivo de outra instituição. “Está-se perante um nó que todos devem lutar para desatar e não procurarem-se culpados”, criticou, acusando de seguida José Massano de falar na condição de político. “Nesta condição, tem de falar aquilo que o povo pretende ouvir”, sentencia.

José Massano criticou, na sexta-feira, os bancos comerciais pelas restrições na concessão de crédito, salientando ser “difícil compreender” que bancos comerciais de grande dimensão não consigam identificar, em um ano, 20 ou 25 projectos de crédito. “Algo não vai bem, porque as empresas estão aí, estão a funcionar e com algum apoio podem dar outro salto”, referiu.

Massano notou que o BNA tem apelado para a “responsabilidade” tanto para os bancos como para que solicita o crédito, salientando que “não se pode assumir que todas as empresas e gestores não são sérios”, visto que muitas, “neste contexto mais difícil, têm sabido dar cartas”. O governador do BNA, entretanto, garante que os bancos, no encontro com o Banco Central, nunca dizem que preferem “levar multa”. “Dizem é que estão preocupados e que também estão activamente à procura destes projectos” para financiar.

Bancos desrespeitam obrigação de informação

Grande parte dos bancos desrespeitou a obrigação de “publicação de informação”prevista no Aviso 10/2020 do Banco Nacional de Angola sobre a concessão de crédito e que entrou em vigo em Abril de 2020. O aviso determina que os bancos devem publicar, no prazo de 30 dias da entrada em vigor do documento, no seu sítio institucional na internet, o valor total acumulado do crédito concedido até à data, ao abrigo do Aviso 10/2020, assim como dos avisos 4/2019 e 7/2019.

No entanto, no leque dos seis maiores bancos, apenas dois têm a referida informação disponível. Trata-se do Standard Bank Angola que, entretanto, só tem disponível informação sobre o crédito à luz do aviso 10/2020, sendo que o reporte é de 30 de Outubro. Até então, a instituição disponibilizou 39,5 mil milhões de kwanzas.

A outra instituição é o banco BIC que, até 31 de Dezembro, disponibilizou mais de 64,5 mil milhões de kwanzas à luz do aviso 10/2020, enquanto, ao abrigo dos avisos 4 e 7 de 2019,disponibilizou mais de 36,1 mil milhões de kwanzas.

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