Angola: Carta aberta ao João Lourenço sobre subvenção aos medicamentos para hipertensão

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CARTA ABERTA A SUA EXCELÊNCIA SENHOR PRESIDENTE DA REPÚBLICA DE ANGOLA,
JOÃO GONÇALVES MANUEL JOÃO LOURENÇO

Excelência,

Chamo-me Manuel Bule das Mangas, tenho 29 anos de idade, morador do bairro da Mukanka, município do Lubango, Província da Huíla e sou professor e… HIPERTENSO!

Escrevo hoje essencialmente para um assunto que já saiu do nosso controle há muito tempo. Faço parte dos mais de 30% de angolanos que convive com a hipertensão. Desde a entrada da pandemia em Angola, as coisas complicaram-se para todos os angolanos que padecem de alguma doença crónica e têm conhecimento. Dificuldades de revisão, dificuldades de locomoção e dificuldades na aquisição de medicamentos por conta da escassez de medicamentos e subida “louca” dos preços. Queria fazer aqui uma carecterização da hipertensão, mas é dispensável porque todos sabemos o quão perigosa é, e como tem matado muita gente em Angola. E se nós, portadores, ficarmos em silêncio estaremos a coorperar para a própria morte que tarde ou cedo chega.

Dados apontam que Angola é dos países da SADC que pratica os preços mais altos sobre os medicamentos (estamos sempre num pódio em vários assuntos, feliz ou infelizmente)… Senhor Presidente, a hipertensão não escolhe cor, raça, nível social ou ainda posição política… ela é inclusiva. Devo aqui reconhecer que apesar dessa inclusão, são, a montante, privilegiadas todas as pessoas que sabem que têm hipertensão. Porque vivemos num país com mais 28 milhões de habitantes e com apenas 70 cardiologistas nacionais, o que constitui privilégio ter contacto com algum deles… ou seja, ainda nos batemos com a subdiagnosticação em alta.

Da não escolha da doença aos privilégios na diagnosticação, os mais privilegiados financeiramente conseguem (ou conseguiam até antes da pandemia) viajar para outros países para aquisição de medicamentos das suas doenças crónicas, ficando sempre mais barato e confiável lá do que aqui. Nesse quesito, nem todos podem. Um simples professor não consegue.

Dos preços altos à ruptura de stock, tem a não subvenção aos preços dos medicamentos das doenças crónicas em Angola. Da vontade exacerbada de se ganhar dinheiro, tornam-se ricos “sem justa causa” os que nos vendem os medicamentos, aproventando-se das nossas desgraças que nunca pedimos para ter.

Aliás, por conta de estigmatização e até discriminação, sofremos em silêncio por causa das nossas doenças que, repito, nunca pedimos pra ter. Reconhecer publicamente que padecemos de uma doença crónica em Angola é um acto de coragem. Porque somos muitos doentes, essa mensagem pode ser representante.

Senhor Presidente, sabemos todos nós que maior parte da legislação aprovada em Angola é de iniciativa do executivo angolano. O Senhor Presidente é o Titular do Poder executivo, e dada a inoperância dos deputados na ausência das representações e na utopia da representatividade, não há interesse da parte destes em debater o assunto, ou por serem os 220 todos saudáveis, ou por mera indiferença porque eles podem viajar e comprar quantos medicamentos quiserem… A certeza de esse assunto nunca chegar ao parlamento é maior se não passar pelo executivo, principalmente quando vem de um mero cidadão da Mukanka.

Senhor Presidente, em nome dos 45 anos de independência, e sabendo que existem mais de 30% de angolanos dependentes de medicamentos para acordarem a cada dia; a minha súplica vai hoje para que enquanto Titular do poder executivo influencie para que se faça uma legislação que subvencione os preços dos medicamentos das doenças crónicas em Angola.

Temos estado a viver cada dia com incertezas por conta da dificuldade enorme de encontrar medicamentos nas farmácias fora de Luanda.

Estamos a sucumbir, estamos a falecer silenciosamente contra a nossa vontade, por mais vontade que tenhamos de nos mantermos vivos com certeza da doença e na incerteza de não encontrar os medicamentos que nas nossas esperanças moribundas nos fazem a utopia do convívio como se de ferro fôssemos. Perdemos anualmente vários parentes na luta contra as doenças crónicas… e convivo com uma certeza: dormir e não voltar a acordar quando os meus medicamentos acabarem, porque sou Hipertenso Non-Dipper e divido o meu salário com o sustento da minha família e os meus medicamentos.

Dispenso-me com um sorriso de certeza da atenção que merecerá este assunto.

VIVA A INDEPENDÊNCIA!

 

Manuel das Mangas

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