Angola: EUA, uma eleição inquietante

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No dia 3 de Novembro, milhões de eleitores americanos irão às urnas para eleger os seus representantes locais, estaduais e federais. Dada a tensão e o interesse particular que caracterizam este ciclo eleitoral, mais especificamente a contenda presidencial, mais de 75 milhões de eleitores já exerceram o seu direito de voto durante o mês de Outubro, tanto por via do correio, como por via presencial nos estados que oferecem votação antecipada. Sem sombra para dúvidas, o maior foco deste exercício eleitoral será a decisão de renovar ou terminar o mandato de Donald Trump. De maneira geral, os seus apoiantes salientam os benefícios da sua política fiscal, e os mais conservadores continuam a vê-lo como uma espécie de “messias”. Para os seus adversários, Trump é um “menino mimado”, egoísta, que atropelou normas de decoro e do funcionamento institucional, responsável pela polarização política e social extrema que o país vive, agravada pelo seu posicionamento excessivamente partidário e, por isso, incapaz de guindar-se à latitude das responsabilidades presidenciais.

Terminadas as convenções dos partidos, ficou a visão de dois universos alternativos que se confrontaram na campanha eleitoral. Enquanto os democratas e a esquerda alertam a sociedade sobre o perigo da erosão da democracia, o esvaziamento das instituições, do fim da decência e ética na vida pública, do regresso a um passado caracterizado pela limitação dos direitos das minorias e dos efeitos da pandemia em curso sobre a classe média e os desfavorecidos, os republicanos e a direita alertam sobre o caos social que advirá das constantes manifestações, o enfraquecimento das forças da ordem pública, o uso da pandemia para coarctar liberdades individuais e o perigo da imposição do socialismo à sociedade americana.

Em face destes pressupostos, as campanhas foram definindo mensagens e estratégias em torno dos temas seguintes: a) Democratas – necessidade de uma estratégia nacional de combate à Covid-19 para criar uma base sólida de recuperação económica; diálogo nacional sobre as relações raciais e a necessidade de encontrar vias de consenso; necessidade de restaurar a decência e respeito no discurso público; o respeito pela lei e normas de ética na governação; políticas de imigração mais razoáveis e humanas e políticas económicas de resgate à classe média em declínio.

A estratégia incluiu a promoção da unidade interna, especialmente com a franja de Bernie Sanders, para evitar o que aconteceu em 2016, quando os apoiantes deste decidiram abster-se das eleições gerais; a procura de alianças com grupos de independentes e com franjas do partido Republicano que repudia a candidatura de Trump, tais como: o “Lincoln Project”; a exortação dos seus adeptos contra o triunfalismo precoce; a intensificação de campanhas de registo de eleitores; e a mobilização de meios de locomoção para eleitores em áreas de difícil acesso. b) Republicanos – necessidade de relançar a economia, apresentando-se como mais bem posicionados para tal; minimizar, quase ignorar, a pandemia e os seus efeitos; assegurar o controlo das fronteiras, sobretudo a do Sul, limitando a “invasão de imigrantes”; a manutenção da ordem pública, contrastada com o “caos social” resultante das manifestações constantes; a defesa da “herança histórica” do país (defesa da manutenção de monumentos e símbolos da antiga Confederação em lugares públicos) e travar a imposição do socialismo à América.

A estratégia incluiu a preservação da chamada “Trump base””- cerca de 35% do eleitorado nacional -, em face das fracturas registadas na estrutura média e superior do partido. Esta opção obrigou Trump a manter o seu discurso na extrema-direita, atraindo organizações e figuras promotoras da supremacia branca. Em abono da verdade, nem todos os apoiantes de Trump são racistas, mas todos os racistas são apoiantes de Trump; a redução das assembleias de voto, a coberto da Covid-19, em estados controlados por governadores republicanos, sobretudo em zonas de maioria latina ou afro-americana; a descredibilização da votação por correio na sequência do elevado número de eleitores que optaram por esta via; a intimidação dos eleitores suburbanos com o espectro do caos social e do advento do socialismo que associam a eventual vitória democrata; a introdução de dúvidas sobre o desfecho do processo eleitoral, com veladas ameaças da não-aceitação dos resultados em caso de derrota.

Ao longo da campanha, Biden manteve uma vantagem confortável a nível das sondagens nacionais e vantagem relativa nos chamados “Swing States” ou “Estados Oscilantes”. Porém, esta vantagem não lhe permite lançar foguetes para o ar, em virtude de três factores principais: 1) Os “Swing States”, que foram palco de actividades ininterruptas dos candidatos na última semana, são um conjunto de estados – Iowa, Ohio, Maine, Michigan, Minesota, Nevada, Pensylvania, New Hampshire, Wisconsin e Florida – que não têm uma tendência tradicional de voto. Votam em função dos candidatos e das circunstâncias de cada ciclo eleitoral. Ora, cada estado da federação tem um número determinado de eleitores (votos) no colégio eleitoral. Assim, os chamados “Red States” representam o voto cativo dos republicanos no referido colégio, enquanto os “Blue States” representam o voto cativo dos democratas. Por si só, nenhum dos blocos perfaz 270 votos necessários para a vitória neste conclave. Por exemplo, o candidato democrata tem quase sempre a maioria dos votos populares, porque a Califórnia e Nova Iorque (1.º e 3.º estados mais populosos, respectivamente) fazem parte dos “Blue States”. Porém, a vantagem numérica no universo do estado não altera o número de eleitores deste no colégio eleitoral. Daí a importância dos estados oscilantes na determinação do voto final do colégio eleitoral e do caminho para 1600 Avenida da Pensilvânia (1). Uma tendência para direita, na maioria destes estados, da vitória republicana, e uma tendência contrária da vitória democrata. 2) Voto oculto. Há cidadãos que, por pressão social ou por outras razões, ocultam a sua tendência real de voto, quando participam em sondagens. Estes tendem a ser eleitores de Trump. Por isso, as sondagens favoráveis a Biden nos “Swing States” podem estar inflacionadas com o voto oculto. 3) Supressão do voto – dadas as margens pequenas que, muitas vezes, se registam nestes estados, uma supressão do voto bem-sucedida torna-se importante. Trump ganhou em 2016 com uma margem de 77 mil votos nestes estados. Os últimos dois factores, combinados, podem alterar a tendência de voto no estado visado.

Pelo que acima ficou exposto, o desfecho deste ciclo eleitoral pode apresentar cenários potencialmente inquietantes. Primeiro, uma eventual derrota de Biden poderá dar origem a protestos por parte dos seus adeptos que tanto apostaram na mudança. Contudo, não é expectável que Biden venha a atirar mais lenha à fogueira. O mesmo não se pode dizer de Trump. Segundo, o volume de votos expressos por correio poderá inviabilizar a determinação do vencedor na noite da eleição. O nervosismo e a incerteza no período de espera, associados às denúncias de Trump referentes à suposta fraude, poderão, facilmente, acelerar a ebulição de paixões incontidas e, dado o clima tenso que se vive, dar azo a actos de violência em certas regiões do país. Terceiro, uma contagem inicial favorável a Trump, que se venha a alterar no dia seguinte, constituirá um cenário que dará lugar a acções judiciais intermináveis. Desde Julho, Trump(2) tem vindo a insurgir-se contra a votação por correio, afirmando que “só perderá as eleições se houver fraude”. Noutros termos, salvo em caso de uma derrota esmagadora, Trump não aceitará os resultados, instalando-se uma crise constitucional que poderá macular a democracia mais desenvolvida do mundo.

Aproxima-se a hora da verdade. Oxalá o bom senso prevaleça, pois a tensão racial, os efeitos sociais da pandemia e o nível elevado de desemprego geraram uma situação política e socioeconómica delicada, que requer uma abordagem racional, sensata e visionaria! O vencedor desta eleição poderá usar o seu poder, tanto para harmonizar a sociedade e procurar consensos nacionais, como para acirrar as diferenças, agravar tensões e empurrar o país para uma instabilidade político-social de duração imprevisível.

Jardo Muekalia ( Novo Jornal)

Professor universitario

 

 

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