Angola: Salvemos o Presidente João Lourenço

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SOS de apoios para salvar João Lourenço e se implementar realmente a democracia em Angola. Os acontecimentos trágicos dos últimos dias no nosso País, levam-me a retomar aquilo que esperava nunca mais fazer isto é, opinar sobre a nossa política interna depois de vários anos de congelamento político, como diria o meu amigo Vitorino Hossi.

Depois de assistir na televisão TPA a Polícia Nacional, a mando do executivo do MPLA, bater nas pessoas para as salvar da contaminação pelo vírus SARS-COV2, vulgo, Covid-19, e com as pancadas dos porretes e uso de gás lacrimogéneo a fim de dispersar os populares para assim evitar-se uma contaminação geral, conclui que deveria sair do limbo e escrever este artigo que há muito tempo tinha prometido aos meus amigos que pensam que tenho uma série de assuntos que poderia partilhar com todos porque não sou um membro frequentador das redes sociais, Facebook, Instagram e outras modernices do nosso tempo.

Pensei que ou João Lourenço comprou os nossos afectos para ganhar simpatias para uma alternância efectiva ou ele tinha uma agenda pessoal, prosseguindo com a sua estratégia de governar Angola nos moldes ditactoriais que são a alma e natureza do MPLA. Estou mais apostado numa terceira análise porque surpreendeu-me a forma como assinou aquele decreto, que foi divulgado no Telejornal das 20 horas de uma sexta-feira, com entrada em vigor 4 horas mais tarde a coberto de uma luta contra a Covid-19 quando o principal objectivo era travar uma manifestação contra a sua governação e a favor da realização de eleições autárquicas no País.

Creio, sinceramente, que João Lourenço tinha um programa sincero e que ele queria retirar o Povo Angolano do ostracismo e da miséria que sofreu no longínquo consulado de José Eduardo dos Santos. Como referi acima, não há relação entre o comportamento da Policia Nacional e o Decreto Presidencial. Este decreto é o topo e o culminar dos conselhos dos membros do seu Gabinete cujos vêm da antiga nomenclatura e que nas eleições de 2017 foram tomados de surpresa nesta transformação do País e nunca esperaram, nem em sonhos, que poderia haver uma hipotética alternância de paradigma fora dos limites da política do MPLA.

Porque é que temos que salvar João Lourenço?

Temos que o salvar porque foi o primeiro que nos criou esperanças e expectativas de mudança no seio do MPLA. Nós os Angolanos, principalmente os que vivemos0 nos centros urbanos sob o controlo do MPLA, fomos “desmiolados” durante os anos {pós-independência com a repressão da polícia política MINSE-DISA-SINFO e com a propaganda dos órgãos de comunicação massiva do MPLA durante 4 décadas. No fim disso tudo, quando se começaram a coser os remendos das calças velhas, para lembrar o Dr. Savimbi, começaram a aparecer opiniões do SINFO que mais tarde se tornaram em verdades absolutas, de que as mudanças em Angola só seriam possíveis se viessem de dirigentes do MPLA em detrimento de toda a oposição, mesmo que esta se unisse em bloco.

Quando José Eduardo dos Santos decidiu finalmente, após tanto desgaste político e descredito total, abandonar a direcção do País, olhou a sua volta e viu o seu Vice-Presidente Manuel Vicente a contas com a justiça portuguesa, alegadamente por corrupção, suborno e lavagem de dinheiro. O filho, Zenu, desacreditado tal como os mais altos dignitários da sua cúpula política e governativa. Não restou a José Eduardo dos Santos outra escolha senão o recurso a João Lourenço, mas não sem antes o comprometer tirando-o da vice-presidência da Assembleia Nacional para o Ministério da Defesa e depois fazê-lo Vice-Presidente do MPLA. Ninguém entre nós, no seu íntimo, pode imaginar como seria se nos raros momentos de lucidez patriótica esta escolha de José Eduardo dos Santos a João Lourenço recaisse, por exemplo, num dos jovens políticos e por sinal com formação académica invejável como o Deputado João Pinto, o Embaixador Luvualo de Carvalho, o Dr. Edeltrudes Costa ou o actual Chefe da Casa Civil Adão de Almeida, em que direcção o nosso País iria?! Não farei aqui um exercício de futurologia ou feitiçaria porque para isso tenho um amigo Bakongo que trata desses temas.

A campanha eleitoral de João Lourenço foi a que José Eduardo dos Santos permitiu que fosse. João Lourenço acreditou até ao fim que era o ungido do “arquitecto da Paz” até perceber na passagem de poderes que a situação do País era muito grave, porque, enquanto ele andava de comício em comício praticamente sozinho, o seu chefe estava a esvaziar os cofres do Estado e a preparar a cerimónia de transição política na expectativa de continuar como Presidente do MPLA enquanto que ele, o seu delfim, se manteria como uma marioneta no Palácio da Cidade Alta nas vestes de Presidente da República. Convém não esquecer que José Eduardo dos Santos só participou no último comício de campanha do MPLA no Estádio de Camama, onde permaneceu por poucos minutos, talvez por ter ficado contrariado com a presença de figuras como Marcolino Moco ou Fernando Heitor, na altura acabado de romper com a UNITA, na tribuna de honra, o que indicava claramente as mudanças que se seguiriam.

O primeiro revés que Joao Lourenco obteve foi quando, na noite do anúncio dos resultados eleitorais, pensando que tinha vantagem suficiente para ganhar, teve que constatar em directo e em frente às câmaras da televisão que o MPLA não representava os números propagandeados e render-se ao facto de que afinal a CNE manobrava os resultados eleitorais.

Para quem vinha preparado para discursar como Presidente vencedor, submeteu-se aos ditames da fraude. Nesta noite, o MPLA foi salvo pelo discurso de Ju Martins, conhecedor da prática pos-eleitoral, o que obrigou o candidato a presidente João Lourenço a abandonar tristemente a sala da sua campanha eleitoral que, por coincidência , era o secretariado nacional do MPLA. A partir daí toda a lucidez do nosso Presidente ficou dependente entre a seu conceito de mudança e o consequente combate à corrupção que foi a sua bandeira durante a campanha eleitoral e o seguimento dos passos do seu mentor. Não nos esqueçamos que João Lourenço fez parte dos jovens utilizados com muita astúcia por José Eduardo dos Santos para ofuscar dirigentes mais antigos e consagrados do MPLA como Lúcio Lara, França Van-Dunem, Ambrósio Lukoki e outros e que ele foi um dos jovens que emergiu no dito “Congresso da Batota” do MPLA na década de 80.

Depois de encontrar os cofres vazios, numa passagem de pastas que durou menos de 15 minutos, João Lourenço se se tivesse dissociado da dependência do MPLA e tivesse explicado claramente ao Povo o seu plano de acção para o retorno da dignidade dos Angolanos, explicando que não havia dinheiro nos cofres, que o País estava delapidado até a medula e que todos nós teríamos que consentir muitos esforços para uma nova época sem dinheiro e sem ladrões, a contestação do povo contra si por causa das dificuldades, de certeza seria menor. João Lourenço perdeu muito tempo, e nesse aspecto reconheço que não foi por culpa sua, porque estava a braços com o sistema de bicefalia do comando do País entre ele e o Presidente Emérito. Depois de resolver este problema e com o exílio voluntário de José Eduardo dos Santos para a Espanha, os “marimbondos”, utilizando a sua expressão, começaram a mostrar o seu ferrão comprometendo-o negativamente tanto em realização de eventos incomuns como casamentos milionários e propostas de projectos faraónicos para o testar. Num ápice, o João Lourenço deu-se conta de que estava de pé em cima de um telhado de vidro.
A Manifestação do dia 24 de Outubro apenas veio destapar a tampa do dilema do regime do MPLA, ou seja, prosseguir com as mudanças e melhorar a vida e as liberdades individuais ou retornar ao “Eduardismo” e reprimir o Povo. Os saudosistas do anterior regime e os Conselheiros do próprio Presidente optaram pelo que era mais fácil, isto é, bater nas pessoas e prendê-las, como já tinham feito na Manifestação de 27 de Maio de 1977, na Manifestação contra a fraude eleitoral em Novembro de 1992 e, recentemente, contra o Julino Kalupeteka no Monte Sumbi do Huambo.

Porque é que o Presidente João Lourenço aceitou o conselho para o regresso às práticas do passado? É que é dificil compreender como é que depois de receber o antigo presidente da UNITA Isaías Samakuva, exímio diplomata, que apesar de ter tido uma análise imaculada e uma opinião bem clara sobre a necessidade de se dialogar sempre, foi traído pela posição do Presidente da República nas vestes de Presidente do MPLA, que utilizando o raciocínio e opinião absurda do Deputado Independente do Grupo Parlamentar da UNITA, David Mendes, que condenava veementemente a Direcção da UNITA por ter militantes seus que participaram na manifestação, em detrimento dos conselhos do Embaixador Samakuva e do Bispo Filomeno Vieira Dias da Igreja Católica que indicavam no sentido da primazia do diálogo. O que se fez com David Mendes o MPLA já tivera sido feito “no outrora”, parafraseando o meu amigo Zezinho de Praga, com a Presidente do PLD, Anália Pereira Simeão, quando a UNITA abandonou a Comissão Constitucional devido ao impasse imposto pela banca do MPLA, o que originou a troca de documentos da Constituição aprovada na Assembleia da República que já se encontrava no Tribunal Constitucional pela “Constituição Atipica” feita a medida do presidente José Eduardo dos Santos, que vigora até hoje.

É preciso salvar João Lourenço para que ele regresse a sua matriz natural, isto é , continuar as reformas que começou em 2017,como a liberdade de imprensa, de manifestar e o combate à corrupção.

Salvar João Lourenço é influência-lo para que seja menos presidente do MPLA e se transforme de facto no Presidente de todos os Angolanos.

Salvar João Lourenço é ajudá-lo para que encontre uma agenda de salvação nacional com a ajuda de todos nós na busca de um projecto de inclusão a começar pelo apoio do líder do maior Partido da oposição, a UNITA, Adalberto da Costa Júnior. Lembro que sem o combate libertador da UNITA por Angola, pelo bem ou pelo mal dependendo do lado da barricada que se esteja, não haveria os direitos cívicos dos cidadãos hoje adquiridos, como este de se manifestar.

Salvar o João Lourenço é pedir que alargue o seu leque de contactos e não se limite ao seu eleitorado e apoiantes do MPLA, que associe personalidades políticas, individuais e independentes da sociedade civil. Não há Povo do MPLA, da sociedade civil ou dos Partidos políticos. Não deve haver instrumentalização da polícia contra a população. João Lourenço deve ser o garante do bom funcionamento das instituições do estado e não o contrário. João Lourenço deve lidar com todos os partidos políticos da mesma maneira. João Lourenço deve ouvir e dialogar com todos; Marcolino Moco, Fernando Macedo, Cesaltina Cutaia, Tânia de Carvalho, Engº António Venâncio, os jornalistas Victor e Ramiro Aleixo, Gustavo Costa, Ismael Mateus, Rafael Marques, Graça Campos e porque não William Tonet, o jurista Albano Pedro, a Juventude dos Filhos da Independência do Gangastar, as associações como a Omunga, o Padre Pio Huakussanga e tantos outros anónimos espalhados no nosso país. Lembram-se das actividades incessantes a bem das comunidades de José António Patrocínio do Lobito e da Associação de Luís Araújo “Não Partam a Minha Casa”? Também deve dialogar com os Lundas e, no fim, não excluir os Bakongo bem como os ovimbundu, não esquecendo obviamente os cabindas. Uma atenção especial para a nova linha de pensamento cultural encabeçada, ao meu entender, pelo jovem pan-africanista, o meu amigo Ricardo Vita de Paris.

Para os jovens que se manifestam, uma pequena mensagem: antes dos revus 15+2, nós, hoje mais idosos, também nos manifestamos no passado, no tempo em que a ditadura disparava sem prévio aviso. Lembro-me da marcha que fizemos aquando do assassinato do Deputado Nfulumpinga Lando Vitor, morto a 2 de Julho de 2004, duas horas depois de ter contestado no Conselho da República o Presidente José Eduardo dos Santos pela não marcação da data das eleições gerais. A nossa marcha partiu do Cemitério do Alto das Cruzes até ao Clube dos Caçadores do Miramar, passando em frente da Embaixada dos Estados Unidos da America. Éramos menos de cinquenta pessoas. Entre elas estavam Filomeno Vieira Lopes, o Embaixador Adriano Parreira, Adalberto da Costa Jr., Luis Nascimento, Sindiangani Bimbi, Nelson Pestana Bonavena e outros. O vosso combate é também o nosso. Não separem nem as gerações nem os cidadãos das mesmas causas para não fazer, involuntariamente, o jogo dos divisionistas e dos que apenas estão a espera de um pequeno deslize para que a ala dura do MPLA, volte aos tempos do “Eduardismo”.

A bem da nação, Salvemos o Presidente João Lourenço para que não haja um retorno ao passado à imagem do que se passou na antiga União Soviética com Gorbachev.

Lisboa, 3 de Novembro de 2020-11-03
Assis I. Baltazar Capamba
Ex Director de Gabinete do Ministro da Hotelaria e Turismo
Ex Representante da UNITA em Franca

 

 

Assis Capamba

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