EUA: Eleições americanas e a exigência com o seu líder

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Ainda sem vencedor oficial [apenas oficioso], mas já com vários episódios no mínimo interessantes, as eleições nos Estados Unidos da América têm estado nas bocas do mundo nos últimos dias. Enquanto este texto é escrito, o processo de contagem, outrora rápido, ainda não se encontra formalmente finalizado sendo inclusive alvo de várias suspeitas na parte de alguns. Dois aspectos em particular merecem, a meu ver, particular atenção.

No final de 2015/início de 2016, Donald Trump era alvo de chacota por parte de meio mundo por ter manifestado a sua intenção em ser candidato à presidência dos Estados Unidos. Figuras públicas como Tom Hanks ou até o então presidente Barack Obama descredibilizavam o candidato republicano e a verdade é que demorou até que este fosse encarado como candidato que efectivamente era. Quase em simultâneo, a popularidade de Trump crescia a olhos vistos através de um discurso tipicamente populista não necessariamente coerente, gerando à sua volta um tremendo antagonismo com os media tradicionais que não perdiam cada oportunidade para o associar a uma personalidade racista para com a comunidade afro-americana, xenófoba com a hispânica, machista ao objetificar a mulher. Efectivamente, Trump veio a vencer as eleições e presidir um dos países mais poderosos do mundo durante 4 anos. As reações transmitidas pelos media tradicionais após a eleição foram amplamente negativas e a expectativa era de 4 dolorosos anos para os Estados Unidos e, consequentemente para o mundo. Não opinarei sobre aquilo que foram estes 4 anos de presidência de Trump.

Quatro anos volvidos e Trump é novamente candidato à Casa Branca. Tivesse Trump cumprido com as expectativas amplamente negativas que se haviam colocado sobre ele e seria de esperar uma vitória relativamente fácil para o candidato democrata, neste caso, Joe Biden. Trump não deixou de ser uma personagem controversa e penso inclusivamente ser justo afirmar que a sua postura durante estes 4 anos não foi muito diferente daquela que assumiu enquanto candidato. Similarmente àquilo que se passou há 4 anos, a contestação a Trump continuou forte. Várias são as ocasiões em que nos deparamos com discursos acentuadamente anti-Trump, sem que necessariamente se dedicasse tempo a analisar as suas políticas com o devido distanciamento, ou comparar os E.U.A. de 2020 com os E.U.A. de 2016. A verdade é que independentemente de quem saia vencedor desta eleição (tudo indica que seja Biden) são vários os milhões de americanos que não consideram Trump a pior coisa do mundo. 4 anos volvidos, dando por isso tempo a que a decisão de voto seja feita com base em decisões reais e numa retroespectiva do que foram os últimos 4 anos e não em discursos populistas sem provas dadas como em 2016, quase 48% do eleitorado americano (perto de 70 milhões de eleitores) acha mesmo que Trump é a pessoa certa para comandar o seu país por mais um mandato.

Mais interessante ainda se torna quando analisamos alguns números em específico. O apoio por parte das comunidades afro americana e hispânica aumentou face a 2016 e, inclusivamente, alguns dos condados com maior percentagem de população hispânica passaram a votar maioritariamente num candidato Republicano praticamente 100 anos depois. O que levou aqueles que supostamente seriam os que mais se sentiriam atacados pelo discurso de ódio que Trump alegadamente propagava a mudar de opinião em massa e entregar-lhe os seus votos? Porque não se dedicou tempo a analisar algumas das políticas que Trump tomou e que, diretamente, trouxeram benefícios a estes cidadão, refletindo-se na crescente confiança que estes eleitores depositam nele? Parece claro que houve um lado da narrativa que não foi bem transmitido o que me leva ao segundo ponto.

Não tem sido pacífica a forma com que Donald Trump tem lidado com esta cada vez mais evidente derrota e as acusações que tem feito são prova disso. Trump suspeita da legalidade e transparência do processo eleitoral que, segundo ele, contabiliza votos que não devia de modo a dar a vitória a Biden. Para isso existem os tribunais e caso se avance com uma ou mais ações legais é lá que o tema deverá ser discutido. O problema é quando canais de televisão interrompem o discurso do ainda presidente quando este fala sobre a sua visão do ato eleitoral, afirmando peremptoriamente que aquilo que Trump diz é absolutamente falso. Tão grave como a leveza com que Trump vem a público fazer estas acusações delicadas, sem demonstrar ter uma base consolidada como apoio, é ver jornalistas atropelarem as suas funções de transmissores de informação e assumirem-se como donos da verdade absoluta. Não compete aos jornalistas definir se as acusações de Trump são legítimas ou não. Compete aos jornalistas, no exercício da sua função, informar a população sobre as acusações que Trump apresentara e, se enquadrado num espaço de discussão, deixar uma opinião sobre isso. Mas, acima de tudo, é errado interromper o discurso de alguém, muito menos de um presidente ainda em funções, só porque se está a ouvir algo com o qual não se concorda. É assim que a contra-informação descontextualizada ganha força.

É esta postura que leva a que posturas muitas vezes extremistas, neste caso a de Trump, ganhem força. É esta postura que leva a que uns acabem por apoiar cegamente um dos lados ao verem-no constantemente humilhados na praça pública e, ao mesmo tempo, leva outros a entrarem numa histeria coletiva contra o candidato antagonizado pelos media. É esta postura que leva a que as opiniões se polarizem cada vez mais e o discurso construtivo acabe por ficar impossibilitado. Com isto, a exigência perante um e outro candidato acaba por baixar. Um é apoiado porque desafia o status quo, supostamente diz verdades que outros não têm a coragem de dizer e, ainda por cima, é marginalizado pelos media tradicionais, sem que se invista o devido tempo a perceber quais são efectivamente as suas propostas. O outro é apoiado porque qualquer coisa é melhor que ter um presidente com uma imagem tão negativa aos olhos dos media tradicionais, sem que se invista o devido tempo a perceber quais são efectivamente as suas propostas. E é no debate construtivo, em que se retiram ideias positivas de todas a partes, com padrões de exigência altíssimos por parte dos eleitores que se formam os grandes líderes.

Fernando Vaz | OBSERVADOR 

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