EUA: Luta “contra” corrupção e “economia” levam Angola a procurar parcerias com Europa – CEDESA

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O Cedesa, grupo que estuda assuntos políticos e económicos de Angola, concluiu hoje que a política externa do país está a mudar devido à situação económica e à luta contra a corrupção, assumindo relevância as parcerias com a Europa Ocidental.

Num relatório com o título “Os Realinhamentos da Política Externa de Angola”, a que a Lusa teve acesso, o grupo de académicos antecipa ainda que Angola venha a reforçar as suas relações com os Estado Unidos da América, e considera que, como noutros momentos da sua história, “Portugal terá sempre um lugar à parte”.

O relatório surge num momento em que o Presidente da República de Angola, João Lourenço, se encontra em França para participar, eta terça-feira, na Cimeira para o Financiamento das Economias Africanas, e à margem da qual se encontrará com o homólogo francês, Emmanuel Macron, e com o primeiro-ministro português, António Costa.

O encontro com o Presidente francês, refere o documento, “representa um dos pontos do realinhamento em curso da política externa” de Angola. E relembra que, “nos últimos tempos do [antigo presidente angolano] José Eduardo dos Santos, os franceses estavam de ‘castigo’ devido ao seu papel no ‘Angolagate'”.

Por outro lado, recorda que, no início deste mês de abril, o primeiro-ministro de Espanha, Pedro Sánchez, fez uma visita a Angola e que “foi acompanhada de grande empenho espanhol, afirmando Angola como um dos parceiros preferenciais de Espanha em África”.

No ano passado, a chanceler alemã, Angela Merkel, também visitou o país, no âmbito de um Fórum Económico Angola-Alemanha, e defendeu um ‘Plano Marshall’ para África. Também o Presidente italiano já tinha visitado Angola em 2019, recorda ainda o documento.

Quanto aos antigos parceiros de Angola, a Cedesa considera que quer as relações com a Rússia quer com a China estão em declínio.

“Por várias razões, neste momento, Angola ensaia uma diferente aproximação geopolítica, que tende a desvalorizar o papel quer da Rússia, quer da China, e a encontrar novas referências e diálogos políticos”, afirma aquela entidade no documento.

Na opinião do grupo de académicos, a política externa de Angola hoje “aposta nos vetores ligados ao investimento externo e combate contra a corrupção”.

E é neste novo contexto que assumem relevância as “parcerias com a Europa Ocidental”, nomeadamente com Espanha, França, Itália, Alemanha e Reino Unido, “com o Golfo Pérsico”, particularmente com os Emirados Árabes Unidos e o Dubai, e “com a Índia”, concluem. Ao mesmo tempo, antecipam um reforço das relações com os Estados Unidos.

Quando a Portugal, os académicos consideram que “é sempre um caso à parte, a sua influência vem menos do governo e mais do ‘soft power’, da ligação umbilical que se mantém entre os povos de ambos os países”.

“Os empresários portugueses olham sempre para Angola como uma possibilidade de expansão dos seus negócios”. Assim, “as relações entre Angola e Portugal têm subjacente um entrosamento entre os povos antes da intervenção dos governos”.

Mas a nível oficial, o governo português também “é geralmente acolhedor em relação a Angola”, defendem.

Em 2005, acolheu os desejos de investimento angolano, atualmente, acedeu aos pedidos de cooperação judicial de Angola relativamente aos processos relativos empresária e filha do antigo Presidente de Angola, Isabel dos Santos, como antes acabou por enviar o processo do antigo vice-presidente angolano Manuel Vicente para aquele país, após grande pressão de Luanda.

“Digamos que há uma porosidade manifesta da posição portuguesa, adaptando-se com facilidade às posições e necessidades de Luanda”, afirmam. Esta posição, aliada ao interesse das elites angolanas em Portugal, “tem acabado por consolidar uma boa relação entre os dois países, apesar de um ou outro solavanco”, concluem os académicos.

Já a relação angolana com a Rússia e com a China, “coincidiu com a necessidade de afirmar uma soberania própria e independente de interferências externas, e também da obtenção de fundos para a guerra e reconstrução pós-guerra”.

Mas a atual política externa de João Lourenço “coloca-se num patamar ligeiramente diferenciado, em que é importante congregar o apoio externo para as duas grandes reformas que estão a ser levadas a cabo internamente: a reforma económica e a luta contra a corrupção”, explicam.

Porque estas duas reformas, salientam, “necessitam de colaboração externa, sem a qual podem não sobreviver”.

A reforma económica de Angola assenta no chamado consenso de Washington, proposto pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).

Assim, implica “a adoção de políticas de alargamento dos impostos e restrição da despesa com a respetiva consolidação fiscal”.

“Naturalmente, que este tipo de políticas é recessivo, aumenta, no curto prazo, a crise económica em Angola”, apontam.

Por isso, a “grande forma de ultrapassar este efeito é obter investimento externo, e muito”.

“Em resumo, o investimento estrangeiro é o contrapeso necessário às reformas do FMI e a chave do sucesso destas. Consequentemente, não admira que um dos principais vetores da política externa angolana seja a aproximação a países com capacidade de investimento reprodutor assinalável e com provas dadas”, defende a Cedesa.

Quanto à luta contra a corrupção, “o panorama que se apresenta é que, de uma maneira geral, são os países com potencialidades para investir em Angola, aqueles em que é necessária a colaboração judicial para a recuperação de ativos ou traço de movimentos financeiros ilegais”, refere o documento.

Isto porque quem desviou “fundos públicos” de Angola remeteu-os “para os países mais avançados ou com maior potencial financeiro”.

Neste momento, “nem a China, nem a Rússia são países de onde se espere mais investimento, nem foram os locais escolhidos, aparentemente, para parquear bens ou ativos ilícitos”.

“Ou, se foram, não há qualquer conhecimento do que lá se passa e está acolhido”, ressalvam.

 

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