O Banquete: Pela primeira vez a Televisão Pública de Angola acusa Manuel Vicente de corrupção

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A TPA denúncia algumas das ligações empresariais pouco claras de Manuel Vicente, quando liderou a Sonangol. Esta reportagem do canal da televisão pública de Angola controlado pelo governo angolano, mostra uma mudança do poder em Luanda.

Recorde-se que em 2007, o atual Presidente, João Lourenço, ameaçou Portugal com um corte de relações, caso investigassem o ex-vice Presidente.

Pela primeira vez, a televisão oficial de Angola, TPA, denunciou alegados casos de corrupção em que envolve Manuel Vicente, antigo vice-presidente da República e ex-presidente da Sonangol, a petrolífera nacional, e que tem merecido a proteção do Presidente João Lourenço.

Apesar de utilizar informações profusamente divulgadas nos últimos anos por órgãos de comunicação social, em especial, portugueses, a Televisão Pública de Angola (TPA) chama a um conjunto de matérias “O Banquete”, dividido em 10 capítulos, garantindo que fez uma investigação de “vários meses”. A TPA conclui que um “grupo restrito de angolanos, utilizando influências, levaram do país milhares de milhões de dólares”. O primeiro episódio foi emitido na noite desta segunda-feira, no principal serviço noticioso da TPA, às 20 horas.

Nesta primeira matéria, a televisão denúncia algumas das ligações empresariais de Manuel Vicente, quando liderou a Sonangol. Entre elas, a constituição do consórcio Miramar Empreendimentos, criada em 2007, que juntava as empresas Sonangol, Suninvest e Namkwang. Esta última, uma construtora, pertence a Manuel Vicente e a Orlando Veloso, ambos administradores da petrolífera angolana.

Apesar de não ter entrado com um único dólar, a Namkwang ficou com 17% do empreendimento e recebeu, da Sonangol, 58 milhões de dólares. Mais tarde, vendeu essa participação por 110 milhões de dólares que a TPA calcula que hoje valem 250 milhões de dólares. A fiscalização das obras estavam nas mãos da empresa Sigma, também ela pertencente ao líder da Sonangol. A outra empresa, a Suninvest, entrou no capital, sem ter posto dinheiro, mas ficou com 40% do projeto. Detalhe: a empresa pertence a Ismael Diogo, que liderava a Fundação José Eduardo dos Santos (FESA).

Manuel Vicente surge assim no centro da matéria da TPA, num sinal que terá perdido o apoio do Presidente angolano, já que a televisão pública é comandada pela presidência e depende da agenda presidencial. Aliás, a matéria termina com a frase “a diversão acabou”, com a promessa de divulgar mais casos semelhantes, envolvendo outras figuras do meio empresarial e político de Angola.

Estiveram em causa as relações com Portugal

João Lourenço chegou, em 2017, a ameaçar as relações com Portugal, precisamente por causa de Manuel Vicente, que estava a ser investigado pela PGR por alegada corrupção a um magistrado do Ministério Público. Na altura, o Presidente angolano, durante a visita oficial a Portugal, exigiu que o processo fosse transferido para Angola. O que acabou por acontecer, em maio de 2018, apesar da resistência da justiça portuguesa. Em Angola, o processo nunca mais teve um desfecho.

Na altura, a tensão entre os dois países passou a ser conhecida como um “irritante”, expressão encontrada pelo ministro português dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva. O “irritante” também foi a principal motivação para as visitas a Angola de Marcelo Rebelo de Sousa e de António Costa, em que os dois se esforçaram para esbater a tensão causada por João Lourenço na defesa de Manuel Vicente.

Mal assumiu a presidência do país, João Lourenço apostou no combate à corrupção. Mas muitos analistas e políticos, tanto da oposição como próximos do MPLA, têm visto um “combate seletivo”, já que os principais alvos têm sido familiares do antigo Presidente José Eduardo dos Santos, ou gente próxima dele.

A primeira a ser atingida foi Isabel dos Santos, filha do ex-Presidente. Depois de afastada da liderança da Sonangol, passou a ser investigada por ter usado fundos públicos para constituir parte do seu vasto património. A primogénita de José Eduardo dos Santos encetou uma “guerra” com João Lourenço, com ameaças de divulgar casos de corrupção, o que mereceu uma resposta de Manuel Vicente, com uma frase profética: “nesta guerra, não haverá vencedores”. Outro filho de José Eduardo dos Santos, José Filomeno dos Santos ‘Zenu’, foi recentemente condenado por ter participado no processo conhecido pelo “caso 500 milhões”, que pretendia captar investimentos internacionais para Angola.

O anúncio publicitário da TPA, antes de emitir “O Banquete”, provocou uma fortíssima agitação nas redes sociais, com muitos internautas a questionarem, com apostas pelo meio, de que a televisão iria ignorar uma acusação que pende sobre o atual chefe de gabinete de João Lourenço, Edeltrudes Costa.

Há meses que o canal português TVI divulgou negócios de uma das empresas de Edeltrudes Costa, que recebeu adjudicações diretas do próprio Presidente angolano. Desde essa altura, tanto João Lourenço como a ‘entourage’ ligada ao MPLA ou à presidência têm evitado, com sucesso, evitar sobre o assunto ou mesmo abordar o nome do chefe de gabinete. Falta saber se a TPA vai incluir Edeltrudes Costa, no fim da festa.

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