Professor angolano que liderou protesto de alunos alvo de processo disciplinar, Governo fala em “precipitação”

A Ministra angolana da Educação considerou hoje que o protesto contra a falta de carteiras organizado por um professor de uma escola de Luanda, que será alvo de um processo disciplinar, foi uma “precipitação” e defendeu mais diálogo.

Luísa Grilo admite, no entanto, a falta de carteiras, indicando que existe um programa de distribuição, que já permitiu o apetrechamento de várias escolas, de acordo com os planos definidos pelos municípios.

“Infelizmente, tivemos esse incidente por precipitação. Era possível, através da direção da escola, terem conversado, e saberiam do programa de distribuição de carteiras e qual a planificação para solucionar este problema”, afirmou, referindo-se à Escola 5108, no distrito da Estalagem, município de Viana, onde na semana passada uma manifestação de alunos culminou na detenção de um professor.

A ministra que falava à margem da apresentação de um programa de bolsas escolares apontou, além do número insuficiente, a existência de material degradado e indicou que muitas carteiras são vandalizadas, destruídas ou roubadas pela própria comunidade escolar, defendendo mais diálogo entre a escola, família e comunidade para evitar incidentes e conflitos.

Questionada sobre o professor que organizou o protesto e vai ser alvo de um processo disciplinar, Luísa Grilo considerou que a atitude do professor “não foi ingénua” e lamentou que tenha desrespeitado a direção da escola.

No seu entender, o professor foi “imprudente” ao movimentar crianças na via publica, o que “exige cuidados redobrados” e afirmou e que esse momento deveria ter sido articulado com as autoridades para não parecer “uma arruaça”.

Também o administrador municipal de Viana, Demétrio António Braz, falou de “instrumentalização das crianças” que foram colocadas “numa das vias mais movimentadas do município”, com riscos para a sua segurança, criticando o professor por não ter cumprido os requisitos legais do direito à manifestação.

Quanto ao seu regresso à docência, “tudo vai depender” do desfecho do processo disciplinar.

Naquela escola da periferia de Luanda, onde estudam cerca de 3.000 alunos da 7.ª à 9.ª classe, as atividades letivas decorriam hoje com normalidade, em salas onde o número de carteiras é ainda insuficiente e o calor torna as condições mais penosas para os alunos que aí passam várias horas por dia.

Os cerca de 300 alunos que saíram à rua na quinta-feira passada para reivindicar carteiras foram dispersados pela polícia e ouviram-se disparos que geraram algumas situações de pânico

Alguns alunos sofreram ferimentos ligeiros enquanto fugiam e outros estiveram desaparecidos até ao início da noite

Na sequência do protesto, o professor Diavava (Coronel Bernardo) foi detido e libertado um dia depois, tendo sido hoje ouvido pelas autoridades de justiça

Até ao momento, não foi possível entrar em contacto com o docente.

A polícia instaurou, entretanto, um inquérito para averiguar as circunstâncias da intervenção.

Segundo o administrador da Viana, “a polícia protegeu as crianças” e tentou controlar o movimento na via pública.

“A polícia é muito responsável, não iria direcionar tiros contra as crianças, mas o som dos disparos produz efeitos, mas felizmente todos foram levados em segurança para a escola e para a casa”, acrescentou, indicando que os ferimentos se deveram à “movimentação” dos alunos na rua.

Disse ainda que todas as escolas “precisam de carteiras, umas mais do que outras”, explicando que são necessárias cerca de 23 mil carteiras para atender às necessidades em Viana, estando o processo de distribuição a decorrer desde maio.

 

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