Aly Silva, jornalista espancado: “Não tarda nada vão começar a aparecer cadáveres nas ruas de Bissau”

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As palavras chegam meio enroladas. “Cortaram-me a língua, vá lá não a cortaram toda”. A voz é firme: “Não saio daqui, se morrer, morro como os outros”. As fotografias mostram um olho negro, feridas nas costas, hematomas no corpo e na cabeça: “Dói-me muito, não consigo dormir, comer também não”.  A resposta é límpida: “Não vou fazer nada, para quê? Apresentar queixa quando eles controlam tudo? Fazer figura de parvo à frente destes malucos? Não, não contem comigo para isso”.

Ao telefone com o Observador, um dia depois de ter sido espancado e abandonado junto a um riacho por quatro homens munidos de metralhadoras AK-47, em Bissau, o jornalista Aly Silva recorda como lhe apontaram a arma ao peito: “Vamos matar-te hoje. A nossa missão é raptar e espancar”. Passavam alguns minutos das 14h00 de terça-feira quando o sequestraram e levaram para os arredores da capital da Guiné-Bissau, agrediram e o deixaram desmaiado: “Devem ter pensado que eu estava morto, se o rio tivesse subido eu tinha morrido afogado”.  Quatro pessoas que passavam viram-no e ajudaram-no, levando-o de carro para o centro da cidade. Não voltou a ver o bilhete de identidade, a carteira profissional de jornalista de Portugal, 400 euros com que ia pagar uma promissória ao banco, o cartão de militar e o cartão multibanco.

O rapto e agressão de um dos jornalistas mais conhecidos da Guiné-Bissau, na terça-feira, já foi condenado pelo parlamento guineense, pelo PAIGC e  23 organizações da sociedade civil, agrupadas no Espaço de Concertação, a pedir a demissão do ministro do Interior e da Ordem Pública, bem como do Procurador-Geral da República. Nada que anime, conforte ou dê esperança ao também bloguer que repetiu o que já escrevera há um mês: “Não tarda nada vão começar a aparecer cadáveres pelas ruas de Bissau, vivemos num estado de terror, vivemos o pior momento da nossa história. As pessoas vagueiam, parece que vivemos num cemitério aberto”.

O jornalista não tem dúvidas sobre o que lhe aconteceu: é a resposta ao que escreve no seu blogue “Ditadura de Consenso”. João Conduto, do Grupo de Reflexão e Análise sobre a Guiné, também não. “Aly Silva tem sido crítico do sistema, tem estado ao lado do povo. Tem denunciado irregularidades do poder político e mesmo da sociedade civil, e organizações não governamentais, associações empresariais e até opinionmakers, diz o engenheiro guineense ao Observador. “É uma das vozes que denuncia com coerência, coragem e de forma impoluta o que afecta a coisa pública, a corrupção que há na justiça, ao mesmo tempo que promove o país”.

João Conduto sublinha que “o poder atual é uma imposição dos militares e o blogger não se tem calado: tem apontado sistematicamente as violações dos direitos humanos e da Constituição”.

Aly Silva não vai fazer nenhuma diligência judicial por não acreditar na sua eficácia. Está convencido que a ordem para a sua agressão vem do alto poder. Recorda o telefonema do Presidente Sissoco Embaló quando acusou o Estado de ter pagado o frete do avião do Presidente cabo-verdiano que visitou o país em janeiro. “Primeiro mandou-me um print-screen do que escrevi e depois telefonou-me. A conversa acabou com ele a dizer-me: ‘Vou-te pôr no teu lugar’”. Além do mais, refere ao Observador, há dois dias avisaram-me que no Palácio [presidencial] andavam a dizer que eu ia ser espancado, e fui mesmo…”

Não tem provas concretas:  “Não tenho ideia, mas se o Presidente (da República) liga a ameaçar-me de cada vez que eu escrevo coisas, não posso acusar, mas posso pensar”, argumentou, referindo vários casos que denunciou e que incomodaram o poder.  ” Lusa, a quem Aly Silva já tinha relatado alguns destes casos, contactou a Presidência guineense para reagir a estas acusações, mas até ao momento não obteve resposta.

Com carteira profissional de jornalista de Portugal (trabalhou no extinto semanário Independente), Aly Silva é há anos apoiante de Domingos Simões Pereira, líder do PAIGC que disputou a segunda volta das polémicas eleições presidenciais de 2019. “O próprio Presidente diz que eu apoio o Domingos, eu apoio-o há 4 anos, sou livre de apoiar quem eu quiser, sou cidadão deste país e só deste país”, sublinhou.

Aly estranha que o Sindicato de Jornalistas Português nada tenha dito ou feito, e fica ainda mais perplexo com a resposta que a presidente deu à Lusa quando questionada sobre o assunto: “Disse que escreveu ao sindicato da Guiné para saber o que se tinha passado e ainda não tinha tido retorno. Mas ela não leu as notícias?” No entanto, Sofia Branco, acabou por dizer à agência de notícias que “este tipo de violência é sempre condenável e representa uma ameaça à liberdade de imprensa e à independência do jornalismo na Guiné-Bissau”.

Da comunidade internacional, Aly Silva nada espera: acusa-a de ter “compactuado com o golpe de Estado” na Guiné-Bissau apesar de estar “mais preocupada com o que se passa no Senegal”.

Na verdade, diz não esperar qualquer defesa da comunidade internacional:”Eu consigo me defender quando puder, quando não posso acontecem estas coisas”, disse. Não vai deixar a Guiné depois desta agressão, “que não é a primeira”: “Não vou sair com o rabinho entre as pernas, não sou um cão”. Medo? “Se tivesse, não vivia neste país. Vou ter medo porquê? Se morrer, morro como todos os outros, qual é o problema? Desde que não me cortem os dedos das mãos, vou continuar o meu trabalho para o povo e para mais ninguém”.

A agressão de Aly Silva começou por ser denunciada pela Liga Guineense dos Direitos Humanos, logo no próprio dia, sendo que fonte do Ministério do Interior guineense disse que soube do que acontecera através daquela organização de defesa dos direitos humanos.

Levantaram-se logo a seguir outras vozes, como as do PAIGC,  que em comunicado condenou, “veementemente, mais um ato cobarde e bárbaro, perpetrado pelos atuais detentores do poder na Guiné-Bissau, que, disfarçados em esquadrões de rapto e espancamentos, têm estado a incitar o uso da violência contra cidadãos indefesos, atos que podemos classificar de autêntico terrorismo de Estado”.

O partido acrescentou ser  “inqualificável e intolerável”que num Estado de direito democrático “persistam atos de perseguição aos cidadãos que somente têm exercido uma das liberdades fundamentais, consagradas na Constituição e nas leis da República, nomeadamente liberdade de expressão”. O líder do PAIGC que regressa à Guiné na sexta-feira, no vídeo em que faz esse anúncio, repudiou o espancamento.

Também a comissão permanente da Assembleia Nacional Popular da Guiné-Bissau condenou o ataque e exigiu  às “autoridades a adoção de medidas urgentes e apropriadas com vista à descoberta dos autores deste hediondo ato” e a sua entrega “à justiça”. Antes disso, Aly Silva fora visitado por uma delegação da comissão especializada da Defesa que procuravam aferir se tinha sido interpelado pelos agressores por ter publicado fotos suas com armas ilegais: “Mostrei-lhes as minhas licenças de porte e uso de armas, sou caçador, era tudo mentira, são todos uns mentirosos”, impacienta-se o jornalista.

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