Angola: As crianças invisíveis de Luanda que veem a rua como forma de sobreviver

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(Sobre)viver e crescer nas ruas de Luanda
Centenas de crianças pedem esmolas nas ruas de Luanda — querem fugir à fome. Vários já consomem drogas para “escapar da realidade da rua”.

Em idade de brincar, centenas de crianças lutam pela sobrevivência nas ruas de Luanda. Movem-se como sombras, tornando-se invisíveis para quem segue apressado nos carros, furando o transito caótico e agressivo da capital angolana e preferindo ignorar os olhares incómodos e suplicantes.

Muitas têm família, mas a falta de condições leva-as a procurar amparo noutros jovens companheiros que, como elas, encontram na rua uma forma de fugir à miséria.

Os Salesianos de Dom Bosco, em parceria com as organizações não governamentais VIS (Voluntariado Internacional para o Desenvolvimento) e Samusocial, são uma das associações que apoiam estes menores em risco, em articulação com as famílias, procurando dar-lhe um percurso de vida alternativo.

Num dia cinzento, a equipa de rua sai em busca de um grupo de cerca de 40 crianças, nos arredores de Luanda, que já estavam sinalizadas.

Em vão. O local, na beira de uma estrada, onde se aglomeravam as várias barracas que lhes serviam de casa, tinha sido “varrido” pela polícia, em vésperas de manifestação, e os menores dispersaram, encontrando-se em parte incerta.

Para a equipa, é uma desilusão que significa quase sempre retomar um trabalho de meses, ou mesmo anos, a partir do zero.

O coordenador vai parando nalguns focos de rua procurando pistas que deem indicações sobre o paradeiro dos miúdos desaparecidos.

De regresso à cidade, numa zona central de Luanda, um grupo de jovens convive e trafica liamba, acolhendo algumas crianças.

F., de 11 anos, um rapazito franzino, de fala trôpega e olhar ausente, apercebe-se da visita e pede insistentemente para ir “para o centro”.

O “centro” é o lar de acolhimento onde já esteve e por onde passam os rapazes em fase de recuperação.

Enquanto chupa uma tampa de gasolina (cada cem kwanzas, cerca de dez cêntimos) F. alterna o relato das experiências positivas do lar onde quer ir “estudar e aprender qualquer coisa”, com histórias sobre os outros rapazes que “davam chapadas”.

Tem quatro irmãos e durante o dia circula pelas ruas de Luanda a pedir, conta, com voz sumida.

Mas, nessa noite, o centro está cheio e será impossível, explica, paciente, o líder da equipa de rua.

D., de 13 anos, também ele agarrado a uma garrafa de plástico de onde saem os vapores tóxicos que anestesiam a dureza da vida dos rapazes junta-se, curioso, mas não quer ser filmado e rapidamente perde o interesse na entrevista.

É ao cair da noite que os miúdos se congregam. Ocupam o dia em busca de esmolas. Descalços, sujos e andrajosos, há quem se compadeça com os olhos tristes e o gesto da mão que colocam junto à barriga num sinal de fome, mas são também escorraçados e às vezes recolhidos pela polícia que os deixa de castigo num lugar longínquo.

Segundo um estudo publicado este ano e produzido pelo VIS no âmbito do projeto “Vamos Juntos”, financiado pela União Europeia, foram identificados, em 2018, mais de 20 focos com 465 crianças e jovens em situação de rua, com idades entre 10 e 25 anos, dos quais 11% raparigas.

As causas principais para a sua situação eram a violência doméstica, a vulnerabilidade social e a desestruturação das famílias.

Entre os “trabalhos” desenvolvidos pelos menores estavam atividades socialmente aceites, como lavagem de carros, despejo de lixo e limpeza, engraxar sapatos, etc., mas também ilícitas (roubos, prostituição, tráfico de droga).

A quase totalidade das crianças contactadas já tinham experimentado pelo menos um tipo de droga para “escapar da realidade da rua e anestesiar as sensações corporais (como fome, dores físicas e psicológicas) e experimentar, consoante as dinâmicas do grupo” em que estavam inseridas.

Gasolina, marijuana e álcool eram as drogas mais consumidas.

A pandemia de Covid-19, com restrições à circulação de pessoas, veio agravar ainda mais a crise económica e social e penalizar os rendimentos de muitas famílias, sendo expectável que os números de hoje sejam ainda maiores.

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