JLO: Propaganda e Culto da Personalidade

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“João Lourenço: Contigo é Possível”. Foi este o slogan escolhido pelo MPLA para uma intensa campanha nas redes sociais nos últimos dias. Vinha junto com uma efígie branca do Presidente de Angola acenando como um Kim Jong-Il. E de frases sábias do próprio, como “Somos todos actores nessa Angola melhor”.

Ontem, à mesma hora a que Lourenço respondia aos jovens que aceitaram o seu convite para o “diálogo” no Centro de Convenções de Talatona, decorria a autópsia de Inocêncio, o estudante universitário morto na manifestação de 11 de Novembro. O jovem que a Polícia disse inicialmente não estar morto, depois que teria sido atingido por um “objecto contundente” na cabeça, e que, depois de ter ficado claro que foi atingido por um disparo da Polícia, Lourenço e os seus ministros admitem veladamente poder ter perdido a vida num contexto de “excessos policiais”.

O fito da propaganda das últimas semanas é, evidentemente, desmobilizar os protestos de jovens que têm vindo a intensificar-se, devido à falta de emprego e subida do custo de vida. Pelo meio, vêm sendo oferecidas aos activistas casas e bolsas de estudo. E a televisão pública lançou uma espécie de “revisão da matéria dada” em termos de acções judiciais contra os poderosos que se apropriaram nas últimas décadas de centenas de milhares de milhões que deveriam ter servido para desenvolver o país.

Resultado das acções judiciais? Foi condenado o ex-ministro Augusto Tomás – a pena de prisão foi reduzida por “serviços à pátria” – e José Filomeno dos Santos (“Zenu”), que além de filho do ex-presidente era uma figura pouco ou nada relevante em termos político-partidários. Arrastam-se investigações, processos e apreensões de activos. Entretanto, o chefe de gabinete de Lourenço, Edeltrudes Costa, é evidentemente alvo de protecção face a indícios de corrupção, a que nem sequer dá resposta.

Ante a evidente falta de capacidade de atender a problemas concretos de uma população muito jovem, cuja idade média é inferior a 17 anos, o MPLA reage com uma ainda mais evidente tentativa de comprar tempo. Esperar que a crise passe, e talvez então “corrigir o que está mal”. Talvez. “Contigo é Possível”…

Será suficiente para fazer acreditar uma nova geração crescida já depois da guerra civil, espectadora da implacável pilhagem de um país ao longo de décadas? Uma geração que em 2018 esteve ao lado de “JLo”, como era simpaticamente tratado, por acreditar que traria uma era de Democracia e prosperidade?

Como outros regimes “herdeiros” das independências africanas que nunca realmente admitiram o princípio da alternância de poder, a velha guarda do MPLA parece acreditar que o descontentamento é aplacável. E que, com o passar do tempo, a velha receita feita de Estado-policial, propaganda e culto da personalidade, assegurará aquilo que para si é essencial – o controlo das instituições.

PS1 – A propósito da minha breve chamada de atenção da semana passada sobre a inacção da CPLP perante graves crises humanitárias em curso nos países lusófonos, o professor Michel Cahen, fez-me chegar um artigo da sua autoria, datado de 2015 mas perfeitamente actual e de enorme frontalidade e pertinência, como é timbre de um dos grandes investigadores das questões lusófonas. Com a sua permissão, partilho link para leitura (AQUI).

PS2 – “Imobilidade preocupante” foi a forma como o Gen. Ramalho Eanes descreveu ontem a postura da CPLP perante a crise de Cabo Delgado (LER).

PS3 – O Observatório do Meio Rural acaba de publicar, através da Escolar Editora, os livros Moçambique: Covid-19 em Contexto de Estado frágil (VER) e Pobreza e desenvolvimento em Moçambique (VER), ambos de grande actualidade, à venda nas livrarias da Escolar Editora.

África Monitor

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