“Os cães que não deixam a caravana passar”

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“Os cães ladram mas a caravana passa”, é uma frase que cresci a ouvir, e essa acrescemos as frases: “Angola é dos vivos” e “o país já tem dono”.

Fico muito feliz com facto de essas frases já não fazerem mais sentido nos dias actuais, porque aos poucos Angola deixa de ser dos “vivos” – aqueles que tinham canais e biolos para tudo, desde venda de atestados médicos à campos de petróleos, “os vivos” que não precisavam estudar porque podem comprar a vaga, os vivos que não precisam trabalhar para ter salário, “os vivos” que conseguiam criar empresas em uma semana para fazer contratos milionários com Estado, pois é, ainda temos uns vivos… mas deixaram de exibir suas proezas.

Como se não bastasse os vivos, haviam os donos – os que tinham passaporte vermelho e resolviam todos os problemas com um telefonema, ou exibindo um cartão, um nome ou uma morada.

Antigamente os cães ladravam e a caravana passava, hoje renascem “os cães que não deixam a caravana passar” – cães que não apenas ladram, mas mostram que têm força para danificar a línea férrea e descarrilar o comboio, mas existe uma línea ténue em conseguir parar uma caravana sem causar o descarrilamento da mesma.

O maquinista do combói pode estar disposto a parar a caravana para acalmar os cães e tentar convencer os ocupantes das luxuosas carruagem que sempre usufruíram das benesses da viagem a partilhar um pouco de comida, mas os ocupantes pressionam o maquinista a manter o status quo,  continuar a marcha e deixar os cães a ladrar. Subestimam a capacidade dos cães descarrilar o comboio, porque afinal se o comboio cair os primeiros a serem esmagados serão os cães, os últimos a receberem assistência médica serão os cães.

Instalado o caus o senário se transforma numa luta pela sobrevivência, mas Darvin nos ensinou que a sobrevivência não é do mais forte mas sim dos mais aptos – aqueles que conseguem adaptar-se ao ecossistema. Então os cães podem ser fortes mas não quer dizer que sejam aptos, podem ter força para descarrilar o comboio mas não têm aptidão para construir uma alínea férrea, fabricar um comboio novo e o colocar nos trilhos.

Se conseguirmos parar a caravana sem a descarrilar, poderemos dialogar com seus ocupantes, ficar com um pouco da excessiva comida que carregam e quiçá alguns cães poderão pegar uma carona e fazer parte da caravana luxuosa. Podemos juntar a força dos cães e a aptidão da caravana e continuar a viagem ou podemos simplesmente descarrilar o comboio e nos lançarmos no caus.

Instalado o caus, o controlo da caravana não estará com o maquinista, nem com os passageiros das carruagens luxuosas, o controlo passará para as mãos das forças militares – aqueles que têm as armas e poder de fogo, que decidem quem vive e quem morre.

Instalado o caus,  não haverão Direitos Constitucionais,  foi assim em 75, 77 e 92, os possuidores de armas calam os cães e formam uma nova carruagem com os passageiros que sobreviveram ao caus e a história segue… uns partirão com a promessa de serem guardados para sempre na memória dos patriotas, eternizados com ruas e avenidas em seus nomes, outros partirão com a promessa de que viverão para sempre no paraíso. Mas não importa em qual narrativa de eternidade acreditas… porque no final das contas Angola é dos vivos, e sem vírgulas altas!

Por isso é importante conhecermos bem o actual ecossistema que reina no país – Quem são os cães e quem está na caravana? Qual é o objectivo ao pararmos a caravana? O que representa o descarrilar do comboio? Quem serão os mais prejudicados e beneficiados com o descarrilamento? e quanto tempo precisaremos para colocar o comboio nos trilhos?

 

Muzangueno Alione

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