Angola: Os Patrulheiros da Liberdade de Expressão

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(Resposta ao escriba sem rosto enviado das trevas para consumir a luz do nosso entendimento)

Sinceramente, nos dias de hoje, em nada me surpreende a coletânea de mentiras grosseiras e ofensas gratuítas subscritas por indivíduo sem identidade que se sentiu magoado pelo facto de eu ter sublinhado, num extenso artigo publicado no dia 11 de Novembro, que, “se o governo não tivesse torpeado a imprensa privada, Angola seria um país menos desigual e a corrupção não teria atingido a dimensão estratosférica que hoje põe de boca aberta os maiores gangsters dos cinco continentes”.

É preciso não esquecer que, num passado recente, antes do fim do conflito armado, alguém decidiu arregimentar na pátria de Camões escribas de segunda classe que passaram a publicar, no nosso principal diário, uma enxurrada de textos de sentido único com pseudónimos altamente suspeitos: Rui Tristão, Afonso Bunga e Paulina Frazão. Lembram-se? Surgiram do nada, dispararam contra tudo e todos, sucumbiram no anonimato e não deixaram qualquer obra. Apenas destroços.

Recentemente, alguns personagens sem registo civil nem nome de baptismo passaram a desfilar nas redes socias. Agora, surge mais um indivíduo mascarado, não por motivos de biossegurança, mas porque não consegue dar a cara. Pode até ser um homem de carne e osso. Pode ser um fantasma. Ou um lobo solitário.

O recurso a textos apócrifos e a escribas sem rosto é uma velha táctica que consiste em fabricar fazedores de opinião, treinados para disparar no escuro com o objectivo de silenciar quem pensa diferente. No passado, em que se acreditava que o dinheiro podia comprar tudo e todos, dentro e fora do país, esta técnica chegou a dar resultados porque, naquela altura, a nossa TPA quase não tinha concorrência, os canais de televisão por satélite e a cabo não estavam vulgarizados, a internet era uma ilustre desconhecida e não havia sequer redes sociais.

Mas foi sol de pouca dura porque os problemas que bem poderiam ser resolvidos logo após à conquista da paz foram sendo sucessivamente adiados e atingiram proporções gigantescas que hoje requerem uma nova abordagem, um novo paradigma que exige pontes em vez de muros.

Quanto às referências à minha pessoa, não há dúvidas de que se trata de uma tentativa desesperada de esgravatar a vida alheia à procura de podres que não existem. Vamos aos factos:

1. Laurinda Tavares, jornalista com desempenho notável na Rádio Nacional, na Rádio Ecclésia e na TPA, não é minha ex-dama. É a minha esposa.

2. Nunca fui a Cabinda em viagens privadas ou de negócios. Estive lá várias vezes em reportagem. Grandes reportagens. Nunca fui ao Cuanza Sul ou a qualquer outra província buscar dinheiro. Aliás, não sei como se viaja para uma localidade em busca de dinheiro, sem prestar qualquer bem ou serviço.

3. Vivi no Cuando Cubango, onde servi como Director da TPA, de Fevereiro de 2013 a Abril de 2016. Ajudei a formar bons quadros porque sempre acreditei que é necessário saber projectar o desenvolvimento sustentável de Angola a partir de qualquer ponto do território nacional.

4. Curiosamente, fiquei a saber pelo novo escriba sem rosto que, afinal, eu já estive prestes a ser preso. Quando e por qual razão, só ele sabe. Mas, sinceramente, não sei quem se dá ao trabalho de contratar um franco atirador que não tem papas na língua e afirma de boca cheia que os seus patrões mandam prender o mensageiro quando não concordam com a mensagem.

5. A verdade é que nunca tive necessidade de fugir do país. Passei uma boa temporada em Harare, entre 1989 e 1991, porque foi lá onde me casei em primeiras núpcias e vi nascer a minha primogénita, no tempo em que Robert Gabriel Mugabe era o maior ícone da cena política africana e o Zimbabwe era o celeiro e a bacia leiteira de toda a África. Vinte anos depois, o pai da nação zimbabweana passou de herói a vilão. Sabem porquê? Acomodou-se na popularidade e deixou de ouvir opiniões contrárias. Mandou incendiar jornais e encarcerar jornalistas. Acabou sendo apeado do poder pelos seus próprios camaradas. Hoje, o Zimbabwe tem mais de seis milhões de famintos.

6. Dissabores e ameaças de vária ordem, devido a artigos, reportagens e pronunciamentos críticos, são situações pelas quais infelizmente muitos jornalistas já passaram. As detenções de jornalistas em serviço voltaram a estar na ordem do dia. Provavelmente não vão continuar porque Sua Excelência mandou parar.

7. Nunca, em momento algum, estive envolvido em qualquer tipo de conflito ou disputa em que algum colega tenha sido lesado por minha causa. Não existe e nunca existiu uma família que se tenha sentido penalizada por eu ter prejudicado a carreira de um ente querido jornalista ou de qualquer outra profissão. Mentiras com tamanha virulência não passam pela cabeça de nenhum doido varrido nem bruxo endiabrado. Só pode ser obra dos patrulheiros da liberdade de expressão.

8. Apesar de ter familiares e amigos que são funcionários de órgãos de defesa e segurança, nunca tive qualquer vínculo formal ou informal com os serviços de segurança. Se tivesse tido, não seria pecado nem desonra. Todas as profissões são nobres, desde que concorram para a defesa do bem comum.

9. Quem comigo trabalha no dia a dia e todos os profissionais com quem partilhei ao longo dos últimos 37 anos as redacções e os estúdios da RNA, da TPA e da RTP-ÁFRICA, os companheiros de viagens, noitadas,, tertúlias, sonhos, angústias, incertezas, etc., sabem bem que sempre me destaquei como colega solidário e leal, orientador dos mais novos e respeitador dos mais velhos.

10. A lucidez que se recomenda no jornalismo não se compadece com o hálito pestilento de bocas incendiarias que ainda acreditam que, silenciando vozes críticas e cegando observadores atentos, os problemas que nos consomem vão desaparecer pura e simplesmente.

11. Quem me conhece, no seio familiar, no meio profissional e na sociedade em geral, sabe que eu nunca fui delator nem inquiridor da vida alheia. Os meus escritos consistem em leituras e análises do presente e do passado, bem como simples projecções do futuro.

12. Não tenho vocação para adivinhação e não partilho informações não confirmadas, por mais realistas ou bombásticas que possam parecerer. Se forem ofensivas, mesmo confirmadas, não partilho. Por isso, quem me conhece confia.

13. Desde início da minha carreira no programa HORA VIVA ( o glorioso PARA JOVENS) da RNA, em 1983, que me tenho identificado com causas nobres e solidárias. Os meus companheiros desta laboriosa caminhada estão ao alcance de quem os queira confrontar. Os detractores que apresentem provas em contrário.

14. Adjectivos de baixo coturno, como bébado, não passam de arma de arremesso de gente que se refugia na baixaria por não ter melhores argumentos. O desempenho profissional, a dedicação ao trabalho e a qualidade da prosa não têm qualquer valor para os patrulheiros da imprensa. O importante é caluniar.

15. Eu escrevo crónicas desde os meus 16 anos, assino com o meu próprio nome e dou a cara porque não tenho nada a esconder. Escrevo por convicção, nunca por encomenda, ninguém me paga absolutamente nada, procuro sempre ser fiel à verdade dos factos e nunca faço recurso a injúrias ou calúnias.

16. Essas histórias de recrutamento de jornalistas para o maior partido da oposição, em pleno ano de 2020, só podem ser alucinações de gente que já não consegue enxergar o mundo que nos rodeia.

17. A situação calamitosa em que nos encontramos não é consequência das críticas ao desempenho do executivo. Todo o mundo sabe disso. Por esta razão, não nos cansamos de apelar a uma governação mais aberta, mais participativa, mais transparente, com mais concursos públicos do que ajustes directos e expedientes viciados de contratação simplificada. Uma governação menos panfletária e mais solidária. Não é possível corrigir o que está mal sem denunciar quem pratica o mal.

18. Por isso, não me surpreende que, entre centenas de cidadãos de diferentes sensibilidades que comentaram o meu artigo publicado em primeira mão na edição de 11/11/2020 do jornal O PAÍS e amplamente reproduzido nas redes sociais, apenas um indivíduo sem rosto nem histórico reagiu de forma intempestiva, com recurso a mentiras monstruosas.

19. Para os meus colegas do passado e do presente, fica a garantia de que está já na forja um novo capítulo de memórias e reflexões sustentadas em arquivos e testemunhos de alguns dos principais protagonistas que se propõem a falar de viva voz e autografar com tinta indelével o nosso modesto contributo para a história dos caminhos e descaminhos do jornalismo e da imprensa na Angola independente.

20. Quem faz carreira nas trevas nunca alcançará a luz. Porque só a luz nos libertará.

José Alves Fernandes Neto

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