Angola: Morreu o ativista angolano ferido na cabeça durante manifestação

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Jovem angolano transportado para um hospital de Luanda com ferimentos graves após um protesto na capital de Angola morreu na sequência de um golpe com um “objeto contundente”. Manifestantes prometem novos protestos.

O manifestante angolano que tinha sido dado como morto, e que a polícia afirmou estar ferido, faleceu na sequência de um golpe com um “objeto contundente”, confirmou esta quinta-feira (12.11) Augusto Manuel, um médico do Hospital Américo Boavida, em Luanda, onde o jovem de 26 anos foi assistido na quarta-feira (11.11).

Segundo o clínico, o paciente foi levado pela polícia para aquela unidade hospitalar, alegadamente por ter sido recolhido na via pública, vítima de uma provável agressão física quando protestava em Luanda por melhores condições de vida.

O médico, em declarações à Televisão Pública de Angola (TPA), referiu que o jovem terá sido atingido “com um objeto contundente”, provocando-lhe um traumatismo na cabeça, “com sangramento ativo e exposição da massa cerebral”.

O paciente foi estabilizado por uma equipa multidisciplinar, tendo sido alvo de vários exames complementares de diagnóstico, antes de ser submetido a uma cirurgia. “Chegámos à conclusão que se tratava de uma fratura exposta, com afundamento dos ossos do crânio, em que havia, para além de sangramento, por lesão vascular, a saída da massa encefálica”, informou.

Segundo Augusto Manuel, o jovem foi levado para o bloco operatório, em estado inconsciente, onde acabou por morrer quatro horas depois. “Tinha um mau prognóstico, quer à entrada do banco de urgência, quer no bloco operatório. (…) Acabou por falecer por paragem cardiorrespiratória irreversível”, frisou.

Médico afasta hipótese de tiro 

O médico afastou a versão de o manifestante ter sido atingido por um disparo de arma de fogo, como inicialmente foi avançado por companheiros manifestantes. “Estamos a falar provavelmente de um pau, de um pedaço de metal, grosso, grande, um ferro, que causa aquele tipo de lesão”, explicou.

O comandante provincial de Luanda da Polícia Nacional, Eduardo Cerqueira, negou, em declarações à comunicação social, na quarta-feira, a existência de qualquer vítima mortal, confirmando que havia um cidadão ferido a receber tratamento no Hospital Américo Boavida.

“Caiu quando fugia da ação policial no sentido de dispersar as pessoas. Nós estávamos a dispersar em dois sentidos, porque não deviam fazer ajuntamentos e porque estavam a fazer desacatos contra as autoridades públicas, arremessando objetos”, justificou.

Organizadores do protesto falam em manipulação da informação

Para Dito Dalí, porta-voz e organizador da manifestação de quarta-feira, a vítima mortal, Inocêncio Matos, também conhecido por “Landu”, de 26 anos, já estava morto quando o comandante da Polícia Nacional em Luanda, Eduardo Cerqueira, disse à imprensa que o jovem estava ferido.

“Lamentamos a postura das autoridades e podemos dizer que estamos perante uma crise de confiança. Já não confiamos naquilo que as autoridades dizem”, denuncia.

A organização da manifestação pacífica que exigia melhores condições de vida dos angolanos e a calendarização das eleições autárquicas ainda não fez o balanço do número de detidos, feridos e possíveis desaparecidos no âmbito do protesto. Segundo Dito Dalí, o grupo vai apresentar um relatório sobre o caso nos próximos dias.

Já esta quinta-feira (12.11), um grupo de 200 jovens protestou junto ao Hotel Intercontinental Miramar, em Luanda, inaugurado no dia anterior pelo Presidente angolano, João Lourenço, para exigir as 900 vagas de emprego prometidas.

Os jovens angolanos garantem que as manifestações vão continuar e vão acontecer em datas históricas. O ativista e investigador Nuno Dala afirma que a confirmação da morte de um manifestante não vai inibir a presença de mais jovens nas próximas manifestações.

“Na verdade, não constitui uma inconfidência dizer que mesmo depois da [manifestação] do dia 10 de dezembro, haverá a do dia 4 de fevereiro, data do início da luta de libertação, haverá a do dia 4 de abril, dia da paz e reconciliação nacional… O objetivo é pressionar o Governo para que cumpra com o seu papel”, indica.

Nito Alves, outro ativista que foi assistido na quarta-feira no hospital, está em situação considerada estável. “Está melhor que ontem. Os homens do Serviço de Investigação Criminal (SIC) estiveram lá em mais um aparato policial para retirar o Nito do hospital. Se não fosse o deputado David Mendes, eles teriam levado o Nito”, informou o ativista angolano Xito Milongo.

No dia em que se celebraram os 45 anos de independência em Angola, a polícia impediu uma manifestação proibida pelo Governo Provincial de Luanda, alegando incumprimento de horários, falta de moradas de alguns organizadores e incumprimento das medidas vigentes no decreto presidencial sobre a situação de calamidade pública, devido à Covid-19, que impedem ajuntamentos de mais de cinco pessoas na via pública.

Texto da DW África 

 

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