Angola: Afundanço da economia ficou 3,9 pontos mais suave com nova direcção do INE

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A direcção do INE chefiada por Camilo Ceita deixou um draft das contas nacionais trimestrais do II trimestre de 2020 que apontava para um afundanço da economia de 12,7% mas na versão final oficial que saiu já sob a liderança de Channey Rosa John o afundanço foi suavizado para 8,8%. Confira o que se passou.

A economia angolana contraiu 8,8% no II trimestre 2020, face ao mesmo período de 2019, revelam as contas nacionais trimestrais do II trimestre de 2020 do Instituto Nacional de Estatística (INE), ficando a meio caminho entre a contracção de 4,6% antecipada pelo Secretário de Estado para o Planeamento, Milton Reis, e o “afundanço” de 12,7% estimado pelo próprio instituto num draft a que o Mercado teve acesso.

O primeiro a avançar com dados sobre a marcha da economia no II trimestre de 2020 foi Milton Reis no dia 8 de Outubro antecipando-se à divulgação das contas nacionais trimestrais do INE. “É importante compreender o seguinte: os governos, incluindo o de Angola, apresentam projecções no início de cada trimestre, e sim as nossas projecções para esse trimestre apontavam para uma contracção de 4,6% do PIB [Produto Interno Bruto] em termos homólogos, ou seja, sendo uma previsão é sempre relativa ao futuro”, explicou Milton Reis ao Expansão.

“O que ouvimos o Secretário de Estado a falar foi uma projecção que toda entidade tem o dinheiro de fazer”, reforçou Channey Rosa na conferência de apresentação das contas nacionais trimestrais do II trimestre de 2020, acrescentando que “o que realmente interessa é a fotografia apresentada pelo INE”.

Na realidade foi a primeira vez que o Governo de Angola fez projecções trimestrais ou pelo menos foi a primeira vez que as divulgou publicamente. E fê-lo não no início do II trimestre que foi em Março, mas apenas em Outubro, início do IV trimestre. Ou seja, Milton Reis não fez uma previsão sobre a evolução da economia no II trimestre, fez uma estimativa do que se passou no II trimestre ou nas palavras da nova directora-geral do INE apresentou uma fotografia.

“Na altura em que nos referimos sobre os 4,6 % o INE não tinha publicado nenhum tipo de documento relativo às contas nacionais, do período em análise, e se formos honestos, todos ouviram-me, na mesma ocasião, a sublinhar que essa projecção do governo seria confirmada ou não pelo relatório das contas nacionais do INE, referentes ao II Trimestre de 2020”, justificou.

“Portanto, é estranha a conclusão, de que o PIB tenha contraído 12,7%, porque os números do INE, revelam uma contracção de 8,8%. Este é o número que conheço. Esse é o número oficial”, referiu.

O Mercado sabe que à data do pronunciamento do Secretário de Estado o departamento de contas Nacionais do INE já tinha partilhado o draft das contas nacionais do II trimestre que apontava para um afundanço da economia de 12,7%, o qual não foi aceite pela tutela, o Ministério da Economia e Planeamento (MEP), a que pertence Milton Reis. O Secretário de Estado nega: “Ponto prévio, não conheço esse draft, toda informação à volta dele a recebi via jornais, pelo que, não vou comentar sobre um documento ao qual não tivemos acesso”.

Mais uma vez a nova directora geral do INE afina pelo mesmo diapasão dando mostras de que o assunto foi discutido e o discurso alinhado entre o MEP e a nova direcção do INE. “Não posso comentar drafts que desconheço”, afirmou Channey Rosa.

O Mercado sabe que o draft das contas nacionais foi a causa do “despedimento” de Camilo Ceita ou pelo menos a gota de água que levou a tal desfecho.

Milton Reis tem outra versão sobre a demissão de Camilo Ceita: “Quem avalia o desempenho da direcção do INE é o Ministro da Economia e Planeamento, que exerce a tutela, delegada, do Titular do Poder Executivo. O INE é um OPES (órgão produtor de estatísticas oficiais), e é parte do Sistema de Estatística Nacional (SEN), mas o SEN é coordenado pelo Ministério da Economia e Planeamento”.

O actual Ministro da Economia e Planeamento começou um processo de reforma do SEN porque pretende acelerar a implementação da Estratégia Nacional de Desenvolvimento das Estatísticas – ENDE, “e depois de 6 meses de avaliação do desempenho da Direcção do INE entendeu que depois de 9 anos com a mesma gestão o INE precisava de começar uma nova dinâmica e o Dr. Camilo, já tinha cumprido o seu ciclo”, concluiu.

Ou seja, de acordo com o Secretário de Estado, o facto de a demissão de Camilo Ceita ter acontecido antes da publicação das contas nacionais trimestrais do II trimestre de 2020 que suavizou o “afundanço” da economia dos 12,7% do draft para 8,8% não passou disso mesmo de coincidência.

Comparando as contas nacionais oficiais do II trimestre com as do draft a que o Mercado teve acesso são evidentes as semelhanças na linguagem divergindo apenas nos números.

Começando pelos principais resultados, “o Produto Interno Bruto (PIB), em volume encadeado, registou uma variação de (-12,7%) em termos homólogos” lê-se no draft das contas nacionais do II trimestre. A versão final oficial do documento grafa exactamente o mesmo, excepto a variação que desce para -8,8%: “O Produto Interno Bruto (PIB), em volume encadeado, registou uma variação de (-8,8%) em termos homólogos”.

O mesmo sucede com a análise sectorial. A grafia é exactamente a mesma só mudam as variações.

“A desaceleração acentuada da actividade económica refletiu o impacto da pandemia da COVID-19, que se fez sentir no referido trimestre. A variação negativa, é atribuído fundamentalmente às actividades de Agro-Pecuária (- 21%), Pesca (-27,8%), Petróleo (- 8,2%), Extracção de Diamantes (-15,6%), Construção(-39.7), Comércio (-3,6%), Transporte (- 69.5%), Governo (-48,8%), Imobilíaria (-17,6%), Impostos (-60%) e Subsídios (-71,4%) de acordo com o gráfico 2”, lê-se no draft.

A versão oficial que foi divulgada pelo INE diz o seguinte: “A desaceleração acentuada da actividade económica reflectiu o impacto da pandemia da COVID19, que se fez sentir no referido trimestre. A variação negativa é atribuída, fundamentalmente, às actividades de Pesca (-27,8%), Petróleo (-8,2%), Extracção de Diamantes (-15,6%), Construção (- 41,0%), Comércio (-0,1%), Transporte (-78,9%), Governo (- 7,1%), Imobiliária (-17,6%), Impostos (-53,6%), Outros serviços (-2,1%) Industria Transformadora (-4,0%) e Subsídios (-71,7%)”.

Comparando as duas versões, as duas principais alterações são as seguintes: o sector da Agro-Pecuária passa de um afundanço de 21% no draft, para um crescimento de 2,3% na versão publicada; o Governo dava um trambolhão de 48,8% no draft mas na versão oficial contrai apenas 7,1%.

 

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