Portugal: Isabel, a filha preferida. Começou pobre, tornou-se a mulher mais rica de África e caiu com estrondo

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Quando começou a escrever o livro “Isabel dos Santos — Segredos e Poder do Dinheiro”, o jornalista Filipe S. Fernandes tinha como personagem principal uma mulher “extremamente reservada” e “verdadeiramente discreta”. Até 2015, era assim a filha do Presidente de Angola: quase não dava entrevistas, fazia poucas aparições públicas e também não aceitou falar com o autor do livro — acedeu apenas ao pedido de, através de intermediários, confirmar alguns dados sobre os seus negócios.
 
“Depois há o momento em que entra no Instagram”, aponta Filipe S. Fernandes. É um momento simbólico, claro. A 12 de janeiro de 2015, a primeira foto que surge na conta da empresária naquela rede social é de um jantar em Banguecoque. Seguem-se imagens de viagens para destinos paradisíacos, hotéis luxuosos, festas na companhia de estrelas norte-americanas, da música e do cinema. A mulher “verdadeiramente discreta” expunha agora a sua vida, os negócios, a família, a riqueza.
 
O que mudou? “Isabel dos Santos não resistiu. Deixou-se deslumbrar pelos que passaram a rodeá-la”, muito por causa também do negócio dos diamantes, que a expôs a um mundo que antes não era o dela, diz o autor do livro e também da segunda parte do trabalho “A Corte de Luanda”, uma investigação publicada esta semana pelo Observador.
 
Entre a primeira versão e a segunda, há, porém, uma característica que se manteve: a rejeição veemente da influência do pai nos seus negócios e no sucesso que foi tendo. O Filipe S. Fernandes conta que a empresária nunca gostou que a tratassem como a filha preferida, mas o que a levava mesmo à fúria (e aos tribunais) era que a apontassem como testa de ferro de José Eduardo dos Santos. Essa influência, porém, era muito clara, por exemplo, para a embaixada do Estados Unidos, que, num telegrama de 2009, juntava um aparte, entre parêntesis, à descrição de Isabel dos Santos como “a mulher de negócios com mais sucesso em Angola”:
 
“Devido em larga medida ao apoio do pai”.
 
Na primeira parte deste conjunto de trabalhos, dedicada à figura de José Eduardo dos Santos, a Dulce Neto descreveu-o como alguém que fazia sempre e apenas aquilo que queria, mesmo quando era pressionado para fazer o contrário. Neste desenho traçado por Filipe S. Fernandes, Isabel é a filha que “fazia sempre o que queria o pai”.
 
Foi assim no último passo que acabou por fazer desmoronar o império: a Sonangol. Na petrolífera angolana, a empresária “fez o que tinha a fazer”, mas era tarde, “já estava muito exposta”, como estava exposto o facto de o poder estar entregue à família, com o irmão, José Filomeno dos Santos, por exemplo, à frente do Fundo Soberano.
 
Ao assumir a liderança da Sonangol, “Isabel dos Santos nem percebeu que seria a primeira vítima do regime”, acredita Filipe S. Fernandes. O pai deixaria de ser Presidente pouco depois, dando o lugar a um dos seus delfins, que acabou por encontrar na filha preferida do antecessor o símbolo perfeito para o corte com o passado.
 
A partir daí, o castelo de cartas, construído de forma inteligente, em Angola e no estrangeiro — incluindo em Portugal —, começou a desabar “a uma velocidade louca”.
 
O retrato impressionante da teia de negócios que a biografia de Isabel dos Santos fazia desatualizou-se rapidamente, com o arresto de participações em empresas, contas bancárias e bens da empresária angolana, há um ano. E continuou já em 2020, nos meses seguintes à divulgação dos documentos do Luanda Leaks, uma fuga de informação centrada, praticamente, apenas nela.
 
“Isabel dos Santos, de princesa a pária” é o segundo texto de uma investigação do Observador sobre a rede de poder que se formou à volta de José Eduardo Santos e da sua família. A primeira parte foi sobre o próprio José Eduardo dos Santos, “o pai da corte de Luanda”. Amanhã será publicada a terceira parte, sobre os delfins Manuel Vicente e João Lourenço, e republicada uma quarta, sobre o genro Sindika Dokolo, que foi antecipada em outubro, devido à morte do marido de Isabel dos Santos.
 
A investigação “A Corte de Luanda” deu origem ainda a uma série inédita de podcasts da Rádio Observador. Ontem e hoje ouvimos os dois episódios sobre José Eduardo dos Santos — “O Viajante” e “O Chefe”. Amanhã e na quinta-feira, às 11h, vão para o ar os episódios “A Cara do Pai”, sobre Isabel dos Santos, e “O Mimoso”, sobre o atual presidente de Angola, João Lourenço.
 

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