Angola: “Desistir por dificuldades é tombar sem honra” – Rui Ramos

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Adolfo Lourenço Luamba, 32 anos, é filho de Lourenço Cahunda Muondo, um camponês falecido em 1990, e de Teresa Orlando Luamba, vendedora ambulante em Luanda, nasceu no Cuale, na província de Malanje.
Devido à guerra, foi forçado, com a mãe e irmãos, a abandonar Malanje e partir para Luanda, num clima de muita turbulência, onde a luta pela vida era a única solução. Na capital do país, foi morar no bairro Malanjino, no Golfe, em casa da irmã da mãe, Domingas Manuel Luamba, que, apesar da sua pobreza, lhes prestou grande apoio. Na moradia da referida tia, de apenas quarto e sala, já moravam 13 pessoas e apareceram mais nove.
 
A dona da habitação não tinha capacidade para assumir as 22 pessoas, uma vez que esta e o marido estavam desempregados, daí quase sempre passavam a noite com fome. “Ela vendia apenas fermento na Pracinha do Lumbondo para alimentar a família. Os meus irmãos e eu sofríamos ‘bulling’, por não sabermos falar português, tendo em conta que, naquela altura, 1998, só falávamos kimbundu, a nossa língua materna.”
 
As dificuldades de integração eram cada vez maiores e a fome não poupava ninguém. Era tempo de penúria, diz Adolfo Luamba. “A mãe tinha decidido fazer negócio, mas não tinha recursos financeiros”. Para contornar isso, ela chegou a fazer um trabalho de um dia numa casa, no bairro Mártires do Kifangondo, e com valores mínimos começou a zungar água fresca na Pracinha do Lumbondo.
 
Em 1999, com dez anos, foi matriculado numa explicação para iniciar os estudos. “Eu era humilhado pelos colegas, pois não sabia as letras do alfabeto nem falar português. De tanto errar as palavra, fui chamado de ‘Monua’, nome atribuído a nós, de Malanje, que não falávamos português.”
 
Com a mãe a conseguir vender apenas água fresca e o pai morrido precocemente, Adolfo Luamba sentia-se perdido. “Eu era um menino que em todas às tardes e princípio da noite tinha de ir vender embalagens e, às vezes, velas, dragão e caixas de fósforos, que eram negócios do esposo da tia com a qual eu vivia, em troca de pagamento da propina da explicação.”
 
Mas Adolfo estudava, estudava sempre. “A notícia mais feliz que eu tive nesse tempo foi a de receber o meu professor em casa para informar sobre o meu desempenho na escola e ele disse que eu estava apto para uma outra classe. A minha alegria era grande, mas a tristeza morava dentro de mim, de tanto pensar nas humilhações.”
 
No ano seguinte, estudou sem parar, mas ouvindo sempre o nome “Monua” quando não conseguisse fazer a tarefa em português. “Tinha de ouvir este nome horrível e discriminatório”.
 
Porém, a vontade de reverter a situação era forte. “Fruto do meu desempenho, fui nomeado o melhor aluno da classe e o professor, olhando para as minhas dificuldades, mas focando-se, também, na minha evolução cognitiva, decidiu transferir-me para a Escola Primária 613, do Kilamba Kiaxi, onde terminei o ensino primário com êxito.”
 
Já, em 2003, a situação económica da mãe continuava crítica. “O meu irmão mais velho vendia os famosos bolos da ‘Nação Coragem’, que recebia de um senhor no Bairro Popular, para ajudar a mãe a sustentar-nos.” Como não havia dinheiro para continuar a estudar, Adolfo decidiu vender embalagens e sacos no Mercado dos Correios, para suportar os encargos da escola e ajudar a mãe.
 
Assim, consegue valores e matricula-se numa escola. “Vendia de manhã e à tarde ia à escola. Mas, de repente, o negócio foi abaixo e as dificuldades atacaram de novo, o que me obrigou a ajudar a mãe na ‘zunga’ de tomate. Para agravar ainda mais a situação, os donos do casebre onde viviam, após uma briga entre a irmã menor e a filha dos senhorios, expulsou-os, deixando claro que não admitiam que uma menina pobre lutasse com a princesa deles. “Não tínhamos onde dormir, ao ponto de dormirmos no quintal de uma vizinha que sentiu compaixão de nós.”
 
Depois foram morar na subzona 10 do Golfe, numa casa sem porta nem janelas. A mãe priorizava sempre o pagamento da escola, o que instalava a fome crónica na família. “Éramos os mais pobres do bairro. Eu sonhava ser professor, mas passava os dias a zungar.”
 
Após ter conseguido valores para ingressar ao ensino médio, entregou-os a um senhor, mas esse o burlou. Em 2009, já no bairro Cassequel Catinton, a família tentou tudo para conseguir alguns proventos. “A minhamãe, que vendia e vende, até agora, mandioca e jinguba pelas ruas de Luanda, conseguiu juntar uns poucos recursos e matriculou-me no Instituto Médio Técnico 17 de Dezembro, onde terminei, em 2012, o curso de Frio e Climatização, na área de Mecânica.”
 
Apesar dos sacrifícios, Adolfo não desistiu, porque, para ele, “desistir por dificuldades é tombar sem honra”. Hoje, é professor, depois da licenciatura em Ciências da Educação, na especialidade de Ensino de Pedagogia, pelo Instituto Superior de Ciências da Educação (ISCED) de Luanda.

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