Angola: Revoltas populares vs geração da mudança

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A maioria das vezes que um apito partidário foi usado para atrair populares às ruas, sempre resultou em tragédias. Entretanto, Angola conhece nos últimos dias o soar do apito popular da cidadania que continua a mobilizar novos participantes dos mais variados sectores.

O surgimento das conhecidas revoltas populares numa determinada nação, democrática ou ditatorial, sempre depende da forma como os seus cidadãos são tratados por aqueles que governam.

A ideia de analisar o presente tema surge com o agudizar da situação social e económica da maioria qualificada dos angolanos, que se encontra a enfrentar um dos piores momentos da sua história no que toca ao bem-estar e desenvolvimento social.

A primeira compreensão que precisamos de ter é a de que uma revolta popular é sempre a acção de um grupo de pessoas que se organiza para protestar contra algo.

“Por hábito, a revolta surge de um modo espontâneo como expressão de um conflito, seja este social, económico, político e outros, no qual as pessoas reúnem-se nas ruas para expressar o seu inconformismo – desagrado – para com uma situação e na tentativa de conseguirem uma mudança ou de chegarem a um acordo.” (Conceitos, 2014).

Às vezes, a revolta deriva num movimento mais organizado que tem projecção no futuro. A revolta também se pode converter numa tentativa de revolução para conseguir uma mudança social ou política profunda. (Idem)

De acordo com a História Universal, o mundo conheceu várias revoltas, mas a que desejo trazer em análise ocorreu na cidade do Rio de Janeiro, Brasil, em pleno mês de Outubro do início da década de 1900.

Naquela época, o 5º Presidente do Brasil durante a “República Velha”, Francisco de Paula Rodrigues Alves que, para acudir a situação da pandemia que a cidade do Rio de Janeiro estava a enfrentar, nomeou o jovem médico sanitário Oswaldo Cruz.

Este especialista em saúde pública havia solicitado total liberdade para executar a sua proposta de acção, tendo sido atendido pelo seu Chefe de Estado, naquela altura. O resultado foi a arbitrariedade e o autoritarismo na política sanitária sobre a população pobre, particularmente a do centro da capital.

A ideia da reurbanização da cidade do Cristo Redentor, que enfrentava enormes pandemias como a peste bubônica, febre-amarela, varíola, sarampo, tuberculose, escarlatina, difteria, coqueluche, tifo, lepra e outras, não resultou apenas em modernização da mesma, mas gerou também uma grande revolta popular, conhecida como a Revolta da Vacina!

No geral, as revoltas populares têm diferentes motivações e contextos, gerando sempre e de forma consensual, uma instabilidade social que acaba por proporcionar – mesmo a curto ou médio prazo – benefícios à população pobre, prejuizo à liderança a determinados grupos nacionais e potenciais exploradores internacionais.

Segundo o historiador mediaval Teofilo Ruiz, premiado com a Medalha Nacional de Humanidades pelo presidente Barack Obama, nos Estados Unidos da América, dentre as principais causas que levam pessoas a se revoltarem constam a fronteira entre pobres e ricos – entende-se endinheirados por terem conseguido a riqueza por meio de desvios do erário – o declínio do rendimento dos pobres, o aumento da inflacção e dos impostos, as crises de fome, pestes, guerras e outros motivos de ordem religiosa (Teófilo Ruiz, 1996).

Em Angola, as revoltas populares têm surgido como expressão de ruas no nomdelo de manifestações que têm sido realizadas por grupos de pessoas que possuem diferentes contextos e motivações.

Segundo relatos históricos, a presença dos europeus no País – na época colonial – gerou uma onda de descontentamento da parte dos autóctones angolanos porque sentiam que o governo português, que denominava Angola como uma província de Portugal, explorava toda a riqueza para o benefício do seu povo, criando assim um empobrecimento aos nacionalistas que apenas podiam ter acesso a uma formação e recursos limitados.

Foi daí que os mais esclarecidos começaram a criar movimentos de mudanças capaz de mobilizar as forças vivas da nação no sentido de despertar nelas o sentimento de independência nacional, um elemento indispensável para o desenvolvimento socioeconómico e político de Angola, marcando assim a PRIMEIRA GERAÇÃO DA MUDANÇA. E por ter sido proclamada de forma menos concensual, essa mesma independência nacional, gerou uma forte dependência que até a época actual não atraiu a estabilidade social e reconciliação nacional, motivos de se levantar a que considero a SEGUNDA GERAÇÃO DA MUDANÇA que é composta por jovens nascidos no liminar da década de 70, 80 e 90, bem como os resilientes do ínicio do segundo milénio.

O processo de libertação nacional que muito se prega foi promovido por jovens que durante décadas têm sido – na sua maioria – governantes do País, muitos dos quais no poder e outros na oposição. A luta só teve razão de ser porque os jovens daquela época decidiram abraçar a causa com bravura e engolir o medo para realizar as várias revoltas que resultaram na devolução do País aos angolanos.

Ao longo de mais de uma década de trabalho jornalístico, o autor do presente artigo tem dedicado parte do seu tempo e recursos para realizar uma série de coberturas de manifestações de ruas, organizadas por grupos que desejam chamar atenção para o cumprimento de determinadas normas constitucionais como o direito à manifestação, acesso ao emprego, melhoria da qualidade de vida da população, repatriamento de capitais, combate à corrupção, demissão de responsáveis da Comissão Nacional Eleitoral, demissão de altos dirigentes da Presidência da República, realização de eleições autárquicas e demais causas que geram revoltas populares, citadas por Teofilo Ruiz.

Depois de revoltas de trabalhadores de empresas públicas e privadas, de estudantes universitários e de partidos políticos como o Partido de Apoio Democrático e Progresso de Angola (PADEPA), surgiu um movimento de músicos, activistas e cidadãos que deram um grito de cidadania para os protestos de rua, como é o caso do Movimento Revolucionário, Central Angola, 15+Duas e, mais recentemente, o caso dos 130+1 manifestantes que estão a ser julgados sob acusação de serem arruaceiros devido as supostas ofensas corporais e danos patrimoniais durante a última MARCHA DO DIA 24 DE OUTUBRO do corrente ano, uma data entra na história!

Vários jornalistas que desde as primeiras horas cobriam a manifestação acabaram por ser igualmente detidos pela Polícia Nacional, que cumpria um Decreto feito às pressas, para supostamente abafar com a marcha.

O momento que o País está a viver representa o sinal da mais expressa baixa do actual governo que dirige o País há mais de quatro décadas, faltando apenas cinco anos para meio século no poder. Isto significa que as acções de descontentamentos e marchas de rua não estão a ser protagonizadas pela geração da independência – os nascidos nos anos 50 e 60 -, pois não estão alinhadas às aspirações da geração Y, que possue características especiais por nascerem entre 1980 a 2000 e são os únicos que fazem parte da revolução tecnológica desde pequenos.

Em suma, é importante que as autoriades do País desenvolvam os mecanismos mais adequadors da gestão do erário público para proporcionar o bem-estar e desenvolvimento da população e reduzir o índice de pobreza, desemprego, desigualdade social, intolerância política, despartidarização das instituições do Estado, etc.

Fernando Guelengue

Jornalista, antigo editor do Semanário Agora, CEO e Fundador do Portal de Notícias Culturais Marimba Selutu, colaborador do Portal de Notícias Por dentro da África, Autor, Palestrante, Formado em Psicologia e Membro Fundador da Associação Científica de Angola.

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